22.3.11
Rio de Janeiro, Brasil: lançamento de livro
No próximo sábado, dia 26/03, às 15h, haverá o lançamento do livro "Mestre João Grande: na roda do mundo", publicado pela Biblioteca Nacional e Editora Garamond, dentro da Coleção Personalidades Negras.
Será na Livraria Largo das Letras, no Mercado das Pulgas (Almirante Alexandrino, 501, Largo dos Guimarães, Santa Teresa), após a roda mensal do Grupo de Capoeira Angola N´golo, que começa às 11h.
O preço de lançamento é promocional, 25 reais.
Compre o livro na net.
10.7.10
Lembrando M Canjiquinha (e canjiquinha quente!)
O que um mestre de capoeira tem a ver com Carmen Miranda?
Leiam este trecho do livro “Capoiera Angola - Ensaio Sócio Etnografico” pelo escritor, anthropólogo e folclorista Waldeloir Rego para saber:
Canjiquinha (Washington Bruno da Silva) nasceu em Salvador a 25 de setembro de 1925. Foi discípulo do famoso capoeirista Raimundo Aberrê, natural de Santo Amaro de Purificação.
A respeito do seu apelido, explica que foi pôsto por seu amigo de nome Dálton Barros, em 1938, devido ao samba-batuque de Roberto Martins, Canjiquniha quente, cantado por Cármen Miranda com o Conjunto Regional de Benedtio Larcerda, gravado pelo Odeon, em 1937… o qual era a única coisa que sabia cantar e o fazia constantemente, por isso seu amigo tomou a iniciativa do apelido.
Canjiquniha é um capoeira jovem e ágil, fazendo com que se destaque é no canto e no toque. Canta como bem poucos e com um repertório vastíssimo, inclusive com uma grande facilidade de improvisor e de todos é quem mais tem contribuído para a adaptação de outros cânticos do folcloreà capoiera. Uma boa parte das cantigas dêste ensaio foram recolhidas de Canjiquinha.
Foi de todos os capoeiristas baianos o mais convidados para exhibições, viagens pelo interior e for a do estado, assim como o que mais atuou no cinema, em longas e curtas metragens… Como mestre de capoeira, trabalhou nos longa-metragens “Os Bandeirantes”, “Barravento”, “O Pagador de Promessas”, “Senhor dos Navegantes”, “Samba”, e inúmeros curta-metragens.
Cuidado com aquelas músicas que não saim da cabeça! Pode conseguir até um novo apelido!
23.6.10
A velha guarda de capoeira, segundo Rego
O livro “Capoiera Angola - Ensaio Sócio Etnografico” escrito pelo anthropólogo e folclorista Waldeloir Rego e publicado em 1968 é um dos documentos mais importantes que existe hoje sobre a capoeira.
O livro tem muita informação sobre a capoeira, inclusive uma história da capoeira, a origem da palavra “capoeira”, e informações basicas sobre os instrumentos. Além disso, e mais interessante para um aluno de capoeira, é a colecção grande de varias músicas e o capítulo seguinte que fala sobre os capoeiristas famosos da epoca.
Já postamos a parte sobre Mestre João Grande. Aqui temos mais sobre outros capoeiras:
Muito conhecido dos capoeiristas atuais foi Pedro Mineiro… Também deixaram fama, na Bahia, Chico da Barra, Ajé, Chico Cazumbá, Ricardo das Docas, Antônio Maré, Zé Bom Pé, Vitorino Braço Torto, Raimundo Cachoeira, Zacaria Grande, Nôzinho, Bilusca, Piroca Peixoto, Zé do Saco, Samual da Calçada, Sete Mortes, Aberrê, Patu das Pedreiras, Hilário Chapeleiro, Cassiano Balão, Bigode de Sêda, Doze Homens, Tiburcinho de Jaguaripe, Zeca Cidade de Palha, Nô da Emprêsa de Carruagem, Pacífico do Rio Vermelho, Bichiguinha, Chico Me Dá, Edgar Chicharro, Inimigo Sem Tripa, Giote, Neco Canário Pardo, Bôca de Porco, Dendê, Gazolina, Espinho, Dadá e Siri de Mangue.Esse livro é muito raro e muito procurado hoje em dia. Se você consiga uma copia, guardê-la como todos seus pedaços. É patrimônio da nossa história!
Pedro Porreta ficou como símbolo da desordem, da valentia. Quando garôto, ouvi muito as pessoas idosas falarem dêsse capoeira e quando a criança era tranquina e gostava de bater nas demais, ao repreendê-lá, perguntava se era Pedro Porreta.
De Chico Três Pedaçoes contou-me o capoeira Canjiquinha (Wasington Bruno da Silva) que era um negrão inimigo de um outro capoeirista chamado Matatu. De certa feita, armou uma emboscada para seu inimigo. Escondeu-se na esquina da rua do Engenho Velho, bem na entrada para quem vai para o solar Boa Vista, hoje asilo São João de Deus e quando Matatu se aproximou distraído, deu-lhe uma facada no peito, mas a faca entrou pela clavícula adentro, partindo-se em três pedaços. Escapou à morte, ficando conhecido por Chico Três Pedaços.
Najé foi outro capoeirista famoso de Coqueiro de Paraguaçu, mas como gostasse muito de ficar na cidade de Najé, ficou conhecido pelo topônimo. Muito ligado ao pessoal de candomblé, de modo que, ao vê-lo, costumava pilheriar com êle cantando: -
Najé
Najé, Najé
Ogun Já orô!
Cantiga chamando atenção para o orô (ritual) de Ogun Já, especial de Ogun cuja caracteristica principal é o sacrifício de cachorro que se lhe faz, sacrifício êsse que e feito raramente e o seu processo e cantigas durante o mesmo diferem dos demais, não cabendo aqui maiores detalhes sôbre o assunto.
Como conseguiram a galera do seu grupo os nomes de guerra? Como é que vocês vão ser lembrados quarenta anos daqui?
Postamos mais deste livro sobre a velha guarda da capoeira no futuro!
16.4.10
Livro: Afro-Latin America 1800-2000
O livro “Afro-Latin America, 1800-2000” escrito por George Reid Andrews é um excelente estudo-geral sobre a história da diáspora africana em América Latina (a América do Sul, o Caribe, a América Central, e o México). Embora que pareça uma tarefa impossivel resumir e analisar um assunto tão imenso num livro só, Andrews faz um bom trabalho, presentando grandes temas históricos que atravessam todos os países americanos- como as guerras de independencia, a política governmental de embranquecimento da população, e a opressão dos negros – e analisando os efetos e consequencias em cada país.Com a maior população de afro-descendentes na região, o Brasil recebe muita atenção, e o autor fala sobre a capoeira assim como outras tradições com raízes africanas como samba, que com tempo viraram manifestões que definam mesmo as culturas dos países da América Latina.
Aqui, presentamos um pouco do que Andrews escreve sobre a capoeira:
… Essa foi a arte marcial chamada capoeira, uma combinação de dança e kick-boxe com raízes na Angola que foi desenvolvido pelos escravos africanos num estético distinctamente do “Novo Mundo”. A palavra e a manifestação aparecerem pela primeira vez nos anos 1770s em documentos brasilieros. Nos anos 1790s e no começo do século 1800, os capoeiristas já estavam se organizando em maltas, ou gangues, que se tornaram uma parte importante da vida urbana no século XIX no Brasil…E mais tarde no livro:
… as maltas da capoeira foram feitos só por homens e tinham códigos rígidos de discrição e lieldade. Traição desses códigos resultava em punicão, até e incluindo a morte… a capoeira era ligada com os cidades portuais e o mar…
…as maltas do Rio de Janeiro tentaram controlar o empregamento de stevedores no caís. Quando foram frustrados, começaram forçar comerciantes a pagar para “proteção”, e outros crimes, dividindo a cidade em territórios e brigando com violência entre si. As maltas melhoraram um pouco sua fama em 1828, quando ajudaram o exército derrotar uma amotinação por mercenários alemães e irlandeses. Durante a segunda parte do século, tentaram estabelecer conexções com patrões poderosos, se alugando como “guarda-costas” à políticos importantes e comerciantes. Mas… a violência das brigas entre as maltas provocou maior repressão policial e em 1890, prohibiram “o exercico de agilidade e destreza corporal conhecido como a capoeira.”
Os autoridades brasileiros entrarem em guerra contra a capoeira que foi prohibido por uma estátua federal em 1890. No Rio de Janeiro, os policias prenderam mais de 600 capoeiristas e os mandaram para a colônial penal na Ilha de Fernando de Noronha, longe do resto do país. As maltas foram eliminadas do então capital, e de todos as cidades brasilieros além de Salvador, onde a repressão policial continuou até os 1920s e os 1930s. Segundo da velha guarda da capoeira, os policias amarravam os capoeiristas aos cavalos e corriam pelas ruas, arrastando-os até a delegacia. Então, eles dizeram que sempre praticavam perto das delegacias para não ser arrastados muito longe.O livro tem muito mais informações bem interessantes. Presentamos outros trechos no futuro.
"Afro-Latin America 1800-2000" está disponivel no acervo da FICA-DC agradecido à DC Commission on the Arts and Humanities.
5.4.10
Lembrando M Pastinha hoje
Neste dia no ano 1889, nasceu Vicente Ferreira de Pastinha. Faria 121 anos hoje!
Neste lindo trecho do livro “Capoiera Angola - Ensaio Sócio Etnografico” o escritor, anthropólogo e folclorista Waldeloir Rego escolha uma parte de um livro de Jorge Amado quec fala sobre Mestre Pastinha:
Na bonita e oportuna crônica, "Conversa com Buanga Fêlê, também conhecido como Mário de Andrade, chefe de luta em Angola", Jorge Amado volta a se manifestar sôbre Pastinha, neste passo: - “Vejo-me encostado à janela de um sobrado do Largo do Pelourinho e um homem de idade, maior de setenta anos, com a vista ameaçada, pequeno e ágil como um gato, está a meu lado e conversa comigo. Somos velhos amigos, nem me lembro mais quando nos conhecemos e desde quando acompanho sua gloriosa trajetória.” É um dos mestres da cultura popular baiana, êsse negro de voz macia e rosto alegre que envelhece em sua escola de capoeira de Angola e dança e luta melhor do que qualquer dos jovens de rijos músculos adolescentes. Falo de Mestre Pastinha, um dos maiores capoeiristas que a Bahia já produziu. Acabou de dançar um samba de Angola e se prepara para lutar.
- Aqui – diz-me êle – pratico a verdadeira capoeira de Angola e aqui os homens aprendeem a ser leais e justos. A lei de Angola, que herdeu de meus avós, é a lei da lealdade.
Os berimbaus da corda tocam a música ritual, chamando os lutadores. Mestre Pastinha enche a sala com sua presença, sua agilidade, seu bale alucinante. A Capoeira de Angola, a luta brasileira por excelência.”
Pastinha é realmente uma das grande figures da vida popular da Bahia. De todos os capoeiristas foi um dos que mais viajaram, em exhibições com a sua Escola e um dos poucos atravassar o Atlântico e chegar até o continente africano, como convidado do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, para integrar a delegação brasileira, junto ao Premier Festival International des Arts Nègres, de Dakar, realizado em abril de 1966.
Iê, Viva Pastinha!
2.2.10
Dois de dois: dia de festa no mar
Hoje é dia dois de fevereiro, dia de festa no mar, quando os brasileiros homenageam a rainha do mar, Iemanjá, ofrecendo à ela presentes de flores, sabonetes, pentes, perfumes, espelhos e outras coisas que ela gosta.Para vocês quem estão longe do mar, uma conta linda sobre Iemanjá para lembrar-se dela, do livro Mitologia dos orixás por Reginaldo Prandi.
Iemanjá salva o Sol de extinguir-se
Orum, o Sol, andava exausto.
Desde a criação do mundo ele não tinha dormido nunca.
Brilhava sobre a Terra dia e noite.
Orum já estava a ponto de exaurir-se, de apagar-se.
Com seu brilho eterno, Orum maltratava a Terra.
Ele queimava a Terra dia após dia.
Já quase tudo estava calcinado
e os humanos já morriam todos.
Os orixás estavam preocupados
e reuniram-se para encontrar uma saída.
Foi Iemanjá quem trouxe a solução.
Ela guardava sob as saias alguns raios de Sol.
Ela projetou sobre a Terra os raios que guardara
e mandou que o Sol fosse descansar,
para depois brilhar de novo.
Os fracos raios de luz formaram um outro astro.
O Sol descansaria para recuperar suas forças
e enquanto isso reinaria Oxu, a Lua.
Sua luz fria refrescaria a Terra
e os seres humanos não pereceriam no calor.
Assim, graças a Iemanjá, o Sol pode dormir.
À noite, as estrelas velam por seu sono,
até que a madrugada traga outro dia.
15.1.10
M João Grande: "Quando em pleno jôgo é um grande bailarino"
Hoje, 15 de janeiro, é o aniversário do Mestre João Grande, icone internacional de Capoeira Angola e cultura brasileira. Já em 1968, Waldeloir Rego, no livro dele, Ensaio Sócio Etnografico, escreveu sobre João Grande, entre outros capoeiras da época, no capítulo, “Capoeiras Famosos e seu Comportamento na Comunidade Social”.João Grande (José Oliveira dos Santos) é dentre todos os grandes capoeira jovens o que mais truques de ataque e de defesa conhece, contribuindo para isso a flexibilidade fora do comum de seu corpo, tornando-o o mais ágil de todos os capoeiras da Bahia. Quando em pleno jôgo é um grande bailarino. Canjiquinha, por exemplo, depois de fazer várias referências elogiosas a João Grande, saiu com um tipo de frase muito sua, de que: “Foi Deus quem mandou João Grande jogar capoeira”…
Que sentimento lindo demais, gente!
Feliz niver, Mestre!!
Vai rolar uma festa domingo no espaço do Mestre em Nova Iorque. Se você estiver na area, não perca a oportunidade de comemorar com a galera lá!
3.12.09
Salvador, Brasil: lancamento do livro "Capoeira, Identidade e Gênero"
LANÇAMENTO: Capoeira, Identidade e Gênero: Ensaios sobre a história social da Capoeira no Brasil, de Josivaldo Pires de Oliveira e Luiz Augusto Pinheiro Leal
O Quê: Lançamento do livro: Capoeira, Identidade e Gênero: Ensaios sobre a história social da Capoeira no Brasil, da autoria de Josivaldo Pires de Oliveira e Luiz Augusto Pinheiro Leal
Quando: 04 de dezembro de 2009, às 18 horas
Onde: Biblioteca Central da UFBA, Rua Barão de Jeremoabo, s/n, Campus de Ondina, Salvador – BA
Valor: R$ 30,00
Valor de Lançamento: R$ 25,00
Da autoria conjunta de Josivaldo Pires de Oliveira e Luiz Augusto Pinheiro Leal, o livro Capoeira, Identidade e Gênero: Ensaios sobre a história social da Capoeira no Brasil, será lançado pela Editora da Universidade Federal da Bahia (EDUFBA) em evento no dia 04 de dezembro (sexta-feira), às 18 horas, na Biblioteca Central da UFBA. Na ocasião o livro será vendido a R$ 25,00.
A capoeira deixou os pés de página dos compêndios mais importantes da história nacional para adquirir vida própria, tornando-se ela mesma tema de volumosos trabalhos, que desvelam planos e horizontes antes absolutamente desconhecidos da nossa historiografia. Este trabalho faz parte desta nova safra.
O objetivo maior da obra não deixa de ser original. Retirar a capoeira de certo nicho, reduto marcado pelo exotismo, para incorporá-lo às questões maiores da formação da nacionalidade, da educação, da construção da identidade nacional. Assim, a capoeira finalmente torna-se parte integrante da história do país, da sua face, da sua gênese, faceta antes percebida, mas nunca explicitada.
13.11.09
Lembrando do M Pastinha no dia 13 de novembro
Mestre Pastinha faleceu nesse dia (13 de novembro) em 1981 na cidade de Salvador, Bahia. Hoje, vamos lembrar do grande mestre e celebrar tudo que ele fez para a capoeira e a cultura brasileira nas nossas rodas e nossos treinos em todas as esquinas do mundo onde a capoeira tem espalhada.
Aqui, um grande amigo de Mestre Pastinha, o famoso escritor baiano, Jorge Amado, escreve um pouco sobre Pastinha, Mestre Waldemar e Mestre Traira no seu guia touristica escrita em 1944 chamado Bahia de Todos os Santos.
Mestre Vicente Pastinha tem mais de setenta anos. É um mulato pequeno, de assombrosa agilidade, de resistência incomum. Quando êle começa a "brincar", a impressão dos assistentes é que aquêle pobre velho, de carapinha branca, cairá em dois minutos, derrubado pelo jovem adversário ou bem pela falta de fôlego. Mas, ah! ledo e cego engano! nada disso se passa. Os adversários sucedem-se, um jovem, outro jovem, mais outro jovem, discípulos ou colegas de Pastinha, e êle os vence a todos e jamais se cansa, jamais perde o fôlego, nem mesmo quando dança o "samba de Angola".Ie, Viva Pastinha!
A Escola de Capoeira Angola, de Mestre Pastinha, fica na ladeira do Pelourinho, no Largo mesmo, num primeiro andar. Às quintas e domingos "brinca-se" na Escola. Mas quintas, em geral, a brincadeira é mais fraca, são os alunos mais novos que se exibem. No domingo vêm os capoeiristas conhecidos e a festa começa pela tarde. Quem fôr a Bahia não deve perder o extraordinário espetáculo que é Mestre Pastinha no meio de seu salão jogando a capoeira, ao som do berimbau. E quando êle não está lutando, não vai descansar. Toma de um berimbau, puxa as cantigas. Para mim, Pastinha é uma das grandes figuras da vida popular da Bahia. É dispensável conhecê-lo, conversar com êle, ouvi-lo contar suas histórias, mas sobretudo, vê-lo na "brincadeira", atingindo adversários vigorosos e jovens, derrotando-os um a um...
... devemos falar da Escola de Waldemar, na Estrada da Liberdade, onde, além do mestre que dá nome à escola, encontra-se Traira, um caboclo seco e de pouco falar, feito de músculos, grande mestre de capoeira. Vê-lo brincar é um verdadeiro prazer estético. Parece um bailarino e só mesmo Pastinha pode competir com ele na beleza de movimentos, na agilidade, na rapidez dos golpes. Quando Traira não se encontra na Escola de Waldemar, está, ali por perto, na Escola de Sete Molas, também na Liberdade. Nessas Escolas pode o visitante adquirir belos berimbaus, ajudando assim o desenvolvimento da nossa luta nacional...
... Mas, ah! que nunca vos aconteça uma briga com um dêsses capoeiristas, porque, por mais que fortes que sejais, eu não apostarei em vós tão certo estou que um minuto depois estareis estirado no chão à disposição da navalha brilhante…
Podeis porém fazer camaradagem com qualquer deles e assistir a uma demonstração. Esses capoeiristas são uma boa gente, mulatos e negros de fácil amizade.
27.10.09
Rio de Janeiro, Brasil: lancamento do livro "Capoeira"
Caros Amigos,Convidamos a todos para participar, nesse sábado, dia 31 de Outubro, de um evento único que vai unir os universos da literatura, da capoeira e do samba.
Tudo num só lugar: Livraria Largo das Letras e Federação dos Trabalhadores Cristãos do Rio de Janeiro.
Mauricio Barros de Castro (um dos organizadores dessa edição) estará autografando o livro Capoeira, uma coletânea de entrevistas com Mestres já falecidos e Mestres em atividade, todos verdadeiras referências dessa tradição cutural Afro-Brasileira.
A roda de Capoeira do Grupo N'Golo (Mestre Jose Carlos) terá a presenca de vários Mestres, Contra-Mestres e de capoeiristas da comunidade da Capoeiragem Carioca que estarão prestigiando o evento que terminara em grande estilo com o Samba de Raiz do "Samba do Chapeu".
VALE CONFERIR!
Mestre Carlão
Azougue Editorial & Livraria Largo das Letras
convidam
Lançamento Coleção Encontros –
CAPOEIRA
Organização
Frede Abreu
Maurício Barros de Castro
Progamação
- tradicional roda de capoeira com o Grupo de Capoeira Angola N’golo
- samba do chapéu
- lançamento do livro
Dia 31/10/2009
11h ás 17h
Local: Livraria Largo das Letras
Rua Almirante Alexandrino,
Largo dos Guimarães – Santa Teresa
Tel: 2221-8992
website
25.9.09
Caixa Pregos, Bahia, Brasil: Semeando 2010 (já!)
Impressionante! O grupo Semente do jogo de Angola já está preparando para o evento em dezembro de 2010!! Uau!SEMEANDO 2010
Em comemoração aos 20 anos de luta e resistência, o Grupo Semente do Jogo de Angola estará realizando em 2010 o VII Encontro Internacional de Capoeira Angola, em Salvador e na Ilha de Caixa Pregos - BA.
Será a inauguração da sede do Grupo na Ilha de Caixa Pregos e o lançamento do livro "Jogo de Angola" - Mestre Jogo de Dentro, Vida e Obra.
Além disso varias oficinas de capoeira angola, samba de roda, percussão, dança afro e mostra de vídeos.
Este evento contará com a presença de alguns Mestres, amigos e os responsáveis pelo trabalho do Grupo em cada núcleo.
Data: 26 de dezembro de 2010 a 10 de janeiro de 2011.
programação
Contatos da organização:(55) (71) 8727-7127
contato (arroba) sementedojogodeangola (ponto) org (ponto) br
blog do grupo
pagamento
Que legal! Quero ir!
7.4.09
Não havia nem mulher nem sacerdote entre eles...
Aqui, ela descreve uma roda da capoeira que viu na rua com sua grande amigo (e amante!) o antropologo e intellectual, Edison Carneiro:
Chegarámos ao lugar onde os homens se preparavam para a capoeira. Os espectadores se apinhavam à volta de uma grande roda e não havia nem mulher nem sacerdote entre eles. Num ponto do interior da roda estavam três negros altos, cada qual segurando um berimbau, com uma das extremidades apoiada no chão. Logo surgiram outros instrumentistas – um com um chocalho, outro com um pandeiro. Édison e os outros me ajudaram a chegar à frente e ficamos contentes por mudar o assunto.
Dois capoeiras estavam agachados diante dos músicos. Um era o campeão Querido-de-Deus, cujo nome de batismo era Samuel. Era alto, mulato, de meia-idade, musculoso, pescador de profissão. O seu adversário era Onça Preta, mais moço, mais baixo, mais gordo. Estavam ambos decalçalso, usavam camisas-de-meia listadas, um de calça branca, outro de calça escura, um de chapeu de feltro, outro com um bone que depois trocou por um palheta. Agachados, de chapeu e descalços, tinham um dos braços apoiado nas coxas e olhavam diretamente para a frente, descansando. Eram obrigados a guarder siléncio e a obrigação estendia-se à assistência.
A orquestra deu início à diversão, numa desafinada invocação; e esse fundo musical monótono, também, era essencial à ocasião. Era uma espécie de lamentosa tessitura anasalada, dentro da qua los homens realizavam maravilhas acrobáticas, sempre dentro da batida correta, enquanto a bacteria cantava versos zombeteiros:
Tava no pé da Cruz
Fazendo minha oração
Quando chega Catarino
Feito a pintura do Cão
E ê, Aruandê!
Iaiá, vamos embora!
Iaiá, pelo mar afora!
É faca de ponto!
Iaiá, é de furá!
Iaiá, joga pra cá!
Iaiá, joga pra lá!
Ê ê, viva meu mestre!
Iaiá que me ensinou
Ioiô, a malandrage
Iaiá, a capoeirage!
Iaiá, vorta do mundo
Ioiô que o mundo dá!
Era uma canção de desafio, esperança e resignação, com fragmentos de idéias de rebeldia. Não possuía um tema único, bem trabalhado, mas resumia um tipo de vida e de protesto. E fazia começar a luta.
Querido-de-Deus balançava os quadric enquanto encarava os adversário, mostrando-lhe os dentes; e avaliava as suas possibilidades. A luta envolvia todas as partes do corp, exceto as mãos, precaução exigida pela polícia para evitar danos. À medida que os movimentos se amoldavam à música, eles se movimentavam numa sequência lenta, como de sonho, que mais parecia uma dança do que uma luta. Como o regulamento estipulava que os capoeiras não deviam machucar-se uns aos outros, os golpes tornavam-se posturas acrobáticas, de valor para o cômputo final, com nomes classificação. Havia vários tipos de capoeira, com sutilezas na forma e na sequência dos golpes, e no modo de tocar os berimbaus.
Querido era prodigiosamente ágil nos difíceis encontros formais com o adversário e sorria constantemente, enquanto as canções rituais rolavam:
Disseram à minha mulher
Que capoeira me venceu.
A mulher jurou pé firme
Como isso não se deu.
E os berimbaus mudaram de toada mais uma vez:
Era eu, era meu mano,
Era meu mano mais eu.
Meu mano alugou uma casa…
Nem ele pagava, nem eu.
Impertinentemente, com movimentos bonitos, vagarosos e calculados. Querido deu uma leve cabeçada, sem tirar o chapéu da cabeçada, na boca do estômago do adversário, derrubando-o, de modo que ele caiu de cabeça. Então a orquestra estrugiu triufante:
Zum-zum-zum
Capoeira mata um!
Tiririca é faca de cortá.
Prepar’a barriga pr’apanhá!
Silenciados os ecos de desafio, terminada a rodada, os dois homens andavam e corriam sem descanso em sentido contrário aos ponteiros do relógio, um atrás do outro, o campeão à frente com os braços levantados, Onça Preta segurando-lhe os pulsos por trás, enquanto a orquestra cantava e tocava, enfadonha:
No tempo qu’eu tinha meu dinheiro,
Camarada me chamava de parente
Quando meu dinheiro se acabou
Camarada me chamou de valente.
Aos poucos, repousados, o da frente girava para encarar o de trás e os dois se evitavam ao compass das cantigas, sem jamais parar, balançando-se de um pé para o outro, à espera de golpes.
Capoeira vai te bate
Camarada, bota sentido!
Advertiam os berimbaus. Os dois se defrontaram, Querido avançando, Onça reta se esquivando, sempre no ritmo. Como Querido avançasse, curvando o busto e abaixando a cabeça para golpear a cintura do outro, Onça Preta inclinou-se para a frente, tentando evitá-lo. Na verdade apenas abriu uma brecha, por onde Querido entrou com a perna direita, mantendo a esquerda esticada rente ao chão para sustentá-lo, Onça Preta atirou frouxamente os braços para trás e caiu para a frente por cima da cabeça que ia atingi-lo, descrevendo um arco perfeito. Rindo calmamente, como num elogio, os dois se leventaram, gingando em círculos, para relaxar os músculos, enquanto a orquestra aplaudia:
Ê aquindérreis!
Ê Aruandê!
Que vai faze
Com capoeira?
Ele é mandingueiro
E sabe jogá…
Empenharam-se novamente em luta e de novo Querido foi o atacante, quase agachado como numa dança russa, oscilando, os braços curvados para a frente para equilibrar-se. Em vez de insister na cabeçada como antes, inclinou-se d elado e, de repente, ergueu o corpo. Onça Preta se curvou para atacar, mas Querido pôs todo o peso na perna direita e raspou a cabeça do adversário com a esquerda, fazendo-o cair mais uma vez esticado!
Agora outro capoeira insistia em entrar na roda. Já o tentara antes, mas não lhe tinham dado atenção. Impaciente, empurrou Onça Preta para trás, apontado, indignado, para o canto ondeos juízes marcavam a giz, no chão, os pontos que Onça Preta não soubera ganhar. E Onça Preta, amuado, lhe cedeu o lugar.
Querido, o herói, enxugou o suor do rosto e das costas e tirou o chapéu da cabeça para refrescá-la. Durante todo o tempo os espectadores se mantiveram quietos, apenas mexendo os pés para aliviar a posição e a excitação anterior. Daí a pouco os berimbaus choramingavam uma invocação para a nova rodada:
Quem te ensinou essa mandinga?
- Foi o nêgo de sinhá.
O nêgo custou dinheiro,
Dinheiro custou ganhá.
Cai, cai Catarina
Sarta de má, vem vê Dalina
Amanha é dia santo
Dia de Corpo-de-Deus
Quem tem roupa vain a missa,
Quem não tem faz como eu.
Cai, cai Catarina…
Para mim aquela era uma exibição incongruente e maravilhosa, para os outros era maravilhosa e interessante absorvente. Para eles estava certo. Mas os versos me levaram a conjecturas acerca de escravidão, rebeldia e escárnio e eu estava perplexa ante o estilo do espetáculo, que robava à capoeira o seu aguilhão original. A polícia suprimira o aguilhão e os negros tinham convertido o remanescente numa fantástica e pungent dança. As canções teriam ainda significação para o povo? Lembrariam as lutas que haviam inspirado ou apenas dramatizavam os homens negros, como o candomblé dramatizavam as mulheres negras? As camadas de espectadores estavam imóveis, de rostos impassíveis.
De novo o desafiante e o campeão começavam a correr com os joelhos dobrados, os braços pendendo molemente, Querido diveritindo-se com pequenos e complicados movimentos dos pés. De repente, um rapaz pulou no centro da arena sacudindo uma vasilha com dinheiro. Acabava de correr o chapéu recolhendo contribuições para os lutadores; e a orquestra, que manda no espetáculo, decidira que, em vez de repartir o dinheiro, devia deixá-lo no chão para que um novo par tentasse apanhá-lo com a boca, cada parceiro rechaçando o outro à moda da capoeira. O rapaz annuncio a decisão e colocou a vasilha no chão, enquanto os berimbaus zombavam:
Brincá com capoeira?
Ele é bicho farso…
E Querido ganhou! Mas, com o brio de um campeão, virou a vasilha no chão para começar a luta de novo:
Ora, pode vadiá!
Desta vez o recém-vindo ganhou. A turba dissolveu-se, inconfortável, sob o sol escaldente das duas horas…
Clique aqui para aprender mais sobre Ruth Landes.
Agradecmos a Lauren pela ajuda com a tradução.
30.9.08
Cantos de guerra dos Nagoas & dos Guaiamuns
A relíquia de um "canto de capoeira" do século passadoNo seu livro Hidden History of Capoeira (A história escondida da capoeira), pesquisadora Maya Talmon-Chvacier ofrece mais idéias sobre estes cantos:
No Toque de Berimbau [a parte da revista dedicada à musica] o primeiro registro da musicalidade da capoeira do século XIX: um canto de desafio entre os dois grandes grupos de capoeira- os Nagoas e os Guaiamuns.
Os Guaiamuns cantavam:
Terezinha de Jesus
Abre a porta e apaga a luz
Quero ver morrer Nagoa
Na porta do Bom Jesus
Os Nagoas respondiam:
O castelo içou bandeira
São Francisco repicou
Gaiamum está reclamando
Manuel Preto já chegou
Essa letra faz parte de um canto de capoeira e foi registrada por Plácido de Abreu em sua obra Os Capoeiras*, em 1886, na cidade de Rio de Janeiro. Esse canto foi chamado de "toada" pelo autor e revela o conflito entre os grupos de capoeira no século XIX: os Gaiamuns e os Nagoas. Esses grupos encontravam-se dividos em diversas facções correspondentes às freguesias da cidade.
Atualmente, essa "toada" tem um grande valor histórico, por confirmar a presença do canto, nos conflitos, o nome dos grupos de capoeira e revelar a presença de Manoel Preto, enquanto um dos líderes dos Nagoas.
Interpretando essa "toada" podemos entender um pouco mais da cultura da capoeira na tradição das maltas do século XIX. Esse canto é o mais antigo, no que se refere a um registro datado da musicalidade na prática dos capoeira.
• ABREU, Plácido de. Os Capoeiras Rio de Janeiro. Tip. Escola Seraphim Alves de Brito 1886. p. 03
Documentos e illustrações do começo do século XIX mostram que instrumentos musicais eram tocados durante o jogo de capoeira, mas não existe uma descrição das músicas. Só no fim do século, vários autores falaram sobre as músicas relacionadas à capoeira. Abreu escreveu que antes que as maltas entravam em briga, se desafiavam com cantos como esta que os Guaiamus cantavam:O jornalzinho e o livro são excellentes recursos, cheios de informações interessantes sobre a capoeira. Nos meses que vêm postaremos mais deles.
Terezinha de Jesus
Abre a porta e apaga a luz
Quero ver morrer Nagoa
Na porta do Bom Jesus
E seus rivais respondiam:
O castelo içou bandeira
São Francisco repicou
Guaiamu está reclamando
Manuel Preto já chegou
Manuel Preto era o nome de guerra do líder do grupo Santana e os inimigos tinham muito medo dele. Os Nagoas utilizavam imagens relacionadas ao seu mundo espiritual. A bandeira era usada para comunicar com o mundo dos mortes. Usavam bandeiras nos funerais. São Francisco, um santo católico, usou a batida do tambor para superar os Gaiamuns. Os africanos comparavam seus deuses aos santos católicos e rezavam à eles através dos santos. São Francisco era sincretizado com o orixá Orunmila, o grande deus de humanidade e o maior conselhor. Ele revela o futuro através do segredo de Ifa, o oráculo supremo. Ele é um grande curadeiro. Os tambores avisam contra o perigo iminente mas também comunicam com outros mundos e possuem poderes sobrenaturais que dão tanta força à Manuel Preto que “Guaiamu está reclamando”.
Os Guaiamus eram influenciados em maior parte pelo cristanidade, demostrado por seu canto de guerra e o uso dos nomes Therezinha e Jesus e as imagens “abra a porta e apaga a luz” que significa a idéia de apagar a vida dos Nagoas e abrir a porta ao céu para as almas deles. Músicas cantadas para desafiar um adversário são comuns na cultura ioruba no contexto de guerra. Eles têm muito poder psicólogico. Evocando a memória de vitórias anteriores, guerreiros poderosos, espiritus, e os ancestrais, os cantos eram usados para inspirar os lutadores e assustar os inimigos. Como a cultura ioruba tinha muito influencia sobre os escravos desde o meio do século XIX para cá, e os capoeiras eram associados com beligerância, podemos ver porquê o desafio ritual era ligado com a música no fim do século XIX. Essas músicas eram caracterizadas como “cantos de guerra”.
19.8.08
Crie seu próprio arquivo: Mandinga, manha & malícia
Torpedeira PiauíCoraçada na Bahia
Marinheiro absoluto
Chegou pintando arrelia
Quando vê cobra assanhada
Não mete o pé na rodia
Que a cobra assanhada morde
Se eu fosse a cobra eu mordia
Mataram Pedro Mineiro
Dentro da Secretaria
O livro Mandinga, Manha & Malícia, uma história sobre os capoeiras na capital da Bahia (1910-1925) escrito por Adriana Alberta Dias, também conhecida como Pimentinha nas rodas de Salvador, é um ótimo livro, muito bem escrito e muito informativo.
Pimentinha analisa as vidas dos capoeiras em Salvador durante este período. Ela, utilizando documentos oficias, artigos da imprensa, e entrevistas com velhos capoeiristas, mostra como os capoeiristas usavam a mandinga e a malícia não só nas rodas de capoeira mas também no seu dia-dia para sobreviver e, e as vezes ainda mais importante, para ganhar fama nas ruas. Ela reflete como isso influenciava a prática
… Não era natural do estado da Bahia, havia nascido em torno do ano de 1887 na cidade de Ouro Preto, estado de Minas Gerais, por isso ficou conhecida pela alcunha de Pedro Mineiro. Aos seus vinte e poucos anos já se encontrava em Salvador, sabia ler, escrever, foi morador da freguesia do Pilar, e trabalhou como carregador e marítimo. Era muito conhecido pelos agents da ordem em virtude do seu comportamento valentão e das façanhas praticadas nas ruas de Salvador. Seu nome aparecia com freqüencia na coluna policial da imprensa baiana, sendo chamado de gatuno, capadócio, criminoso, facínora e célebre desordeiro. O principal palco de suas desordens era o Cais Dourado, mas também frequentava o “27 do Tabuão” e o “botequim do Galinho”. Costumava arrumar desavenças com todo tipo de gente, outros capoeira, mulheres, desordeiros, indivíduos comuns, marinheiros e, principalmente, policiais.Uma das aventuras de Pedro Mineiro inspirou esta ladainha. No que foi chamado "o crime do Saldanha", porque aconteceu na Rua do Saldanha, Pedro Mineiro e alguns amigos capoeiras desafiaram um grupo de marinheiros:
No dia 26 de dezembro um outro conflito a bala explodiu entre capoeiras e um grupo de marinheiros do torpedeiro Piauhy, chegado do Rio de Janeiro há três meses. O palco da desordem foi o “botequim do Galinho”, onde os marinheiros jantavam, quando foram atacdos pelos capoeiras Pedro Mineiro e Sebastião de Souza, e por um individuo chamado Antônio José Freire, também conhecido por Branco.Como Pimentinha explica, ninguem sabe direito a causa da briga entre os marinheiros do Piauhy e os capoeira, se fosse por causa de uma mulher, ou se um sargento tivesse mandado os capoeiras atacar os marinheiros para vingar uma refrega que tinha acontecido alguns dias antes. De qualquer forma, dois dias depois da briga, houve um inquérito na Secretaria. Enquanto os capoeiristas respondiam as perguntas:
O tireteio durou cerca de quinze minutos, provocando grande alvoroço e muita correria. Todos os botequins, lojas, armazéns e residências da região fecharam portas e janelas. Na luta, dois mariinheiros foram mortos…
Os demais marinheiros, feridos, conseguiram escaper e voltar ao navio. Pedro Mineiro, Sebastião e Branco tentaram fugir pelas ruas da Sé, mas foram presos por guardas civis e pessoas do povo, conduzidos aoposto policial mais próximo, e de lá transferidos para a Secretaria de Segurança Pública.
… um dos marinheiros do Piauhy, sentindo-se insultado, atirou contra Pedro Mineiro dentro da chefatura de polícia, diante das próprias autoridades. Assim, de acusado, Pedro Mineiro passou também a ser vítima, pois ficou gravemente ferido, atingido no ombro, na perna, e ma região lombar.Parece que Branco consegiu fugir. Os marinheiros foram castigado pelo capitão do Piauhy e os capoeiras foram levados ao hospital, onde ficaram sob a guarda da polícia.
Esse ataque provocou, evidamente, uma enorme confusão, com mais de vinte praças de poliícia, marinheiros, oficiais de justiçia e o delegado atropelando-se na correria, fato que permitiu a fuga de Branco e Sebastião… [Sebastião foi] perseguido por um marinheiro até a Rua de Faísca, onde recebeu uma facada tão profundo nas suas costas que chegou a ter os seus rina atingidos.
O crime e a condição de Pedro Mineiro foram “manchetes de primeira pagina” na imprensa baiana. Enquanto isso, o capitão do Piauhy e o chefe de polícia trocaram correspondência se acusando de incompetência. Depois de uma tentativa de suicidar-se, que também saiu nos jornais, Pedro Mineiro morreu no dia 15 de Janeiro:
… Pedro José Viera veio a falecer no Hospital Santa Isabel, em virtude da impossibilidade de extração da bala de um dos tiros recebidos … Tinha 27 anos de idade, e foi enterrado no cemitério da Quinta dos Lázaros.Como já falei, o livro é muito bom, tem muitas histórias interessantes e muitos fatos importantes. Vale a pena adicionar a sua biblioteca.
1.7.08
"Os bichinhos sou eu!": Mestre Pastinha e Pedro Porreta
O Mestre Pastinha chegou a defrontar-se com o pergioso capoeirista Pedro Porreta, que marcou época na Bahia pela sua maneira agressiva de proceder e pela inúmeras desordens que praticava, chegando a enfrentar o famoso Chefe do Esquadrão da Cavalaria, Pedro Azevedo Gordilho, mais conhecido como "Pedrito". A partir de então, foi perseguido implacavelmento pelo Esquadrão, que no entanto, não logrou êxito.
Tudo começou quando Pedro Porreta foi morar em um barraco perto das Rua das Laranjeiras, onde o Mestre Pastinha possuía uma quitanda. Houve um desentendimento entre os dois, terminando numa briga violenta, sendo derrotado no fim, depois de muita pernada de ambos lados, pelo Mestre Pastinha, que no entanto, considerou a luta mais dificil que encontrou pela frente. "Bom menino," respondeu-me o Mestre quando perguntei –lhe sobre a capacidade do seu adversário em briga de rua.
O Mestre Pastinha tinha ido a feira buscar bananas, deixou sua mulher tomando conta da quitanda, quando entrou Pedro Porreta, que não sabia que a mesma pertencia ao mestre. Ao entrar pediu meia-duzia de bananas.
- Não temos, o meu marido foi buscar ainda agora, na feira, respondeu-lhe a mulher do mestre.
Pedro Porreta já ia saindo quando avistou quatro bananas em cima do balcão, virou-se e indagou:
- E estas quarto bananas que estão aí, para quem são?
- São para os bichinhos! disse a mulher do mestre apontando para uma gaiola com dois pássaros.
Pedro Porreta avançou, pegou as bananas, e saiu, dizendo:
- Os bichinhos sou eu!
Ao voltar da feira, assim que entrou na quitanda e estava colocando o pesado cesto de bananas no chão, sua mulher foi-he contando o sucedido. Ao terminar o relato, o mestre saiu imediatamentea procura do desconhecido. Ao chegar na rua encontrou um seu amigo, que a tudo assistira, revelando a identidade e o endereço do indivíduo. O mestre agradeçeu e dirigiu-se a casa de Pedro Poretta, encontrando-o na porta.
Pedro Porreta não suspeitando que ele fosse o dono da quitanda, cumprimentou=o amistosamente: "Como vai mestre? O que deseja?" Ao saber que ele era proprietário da mesma e vinha disposto a obter uma explicação pelo que acontecera, abriu a porta, soltou uma gargalhada e apontou as bananas dentro de uma panela cozinhando. O Mestre Pastinha, notando a expressão zombeteira de Pedro Porreta, virou-se para ele e disse: "Pedro, eu vou levar as bananas assim mesmo, só por causa do seu desaforo de invadir minha quitanda sem a minha presença e zombar da minha mulher."
Ao ouvir isto, Pedro Poretta dirigiu-se ao meio da rua e desafiou-o para lutar.
Mestre Pastinha aceitou o desafio e a briga prolongou-se por vários minutos, sem que ninguém tivesse a coragem de apartá-los, só terminando com uma violenta cabeçada do Mestre Pastinha, atirando-o longe, estendido junto ao passeio. Neste momento aproximou-se um senhor, que morava nas proximidades e depois de inteirar-se do motivo da briga, prontificou-se a pagar a despesa, contanto que encerrassem aquele assunto. Mestre Pastinha não aceitou o dinheiro de tal senhor, dizendo-lhe, "Meu amigo, eu agredeço a sua gentileza mas o que motivou a minha briga com Pedro não foi o dinheiro despesa com as quarto bananas e sim a maneira que ele procedeu." Dizendo isto retirou-se para a sua quitanda e Pedro Porreta mudou-se de seu barraco no dia seguinte.
O livro de Mestre Bola Sete tem ainda mais histórias descrevendo as aventuras de Mestre Pastinha. Vale a pena comprá-lo para ler tudo e incluir no arquivo do seu grupo.
No futuro, postaremos mais sobre Pedro Porreta e sua vida na cidade de Salvador, Bahia.
4.6.08
Edison Carneiro: "os moleques de sinhá" na Bahia
Edison Carneiro (1912 - 1972) foi um intelectual e escritor brasileiro quem dedicou sua vida à resgatar da cultura popular brasileira. Fez várias pesquisas sobre vários aspectos da cultura afro-brasileira, inclusive a capoeira e o candomblé. Ele colocou as resultadas das pesquisas em livros os quais ele chamou “cadernos”. Como ele escrevia sobre a cultura negra no Brasil e existia muito prejuzio, era difícil publicar os cadernos. O caderno sobre a capoeira foi publicado dois anos depois da morte dele.No livro, Cadernos de Folclore – Capoeira, ele apresenta informação básica sobre a capoeira- a historia, os movimentos, o berimbau, e mais. Também ele fala nos capoeiras da época e os lugares onde gostavam de vadiar:
Os pontos preferidos para a vadiação dos capoeira eram a Boa Viagem no Ano Bom, a Ribeira na segunda-feira de Bonfim, o Terreiro no Carnaval, e o Mercado Modelo durante a Festa da Nossa Senhora da Conceição, mas agora os “moleques de sinhá” se exercitam em locas certos, as “academias” de velho Pastinha no Pelourinho, de Waldemar, de Traíra, de Canjiquinha e outros...Hoje em dia, há um museu fantástico no Rio de Janeiro dedicado a Edison Carneiro.
... Os grande capoeira da Bahia eram até poucos anos, o pescador Samuel Querido de Deus, e o estivador Maré, ambos da capital, e Siri do Mangue de Santo Amaro. Outros capoeiras conhecidos eram o “capitão” Aberre, Juvenal, Polu, Onça Preta, Barbosa, Zepelin.. Alguns do seus discípulos emigrados para o Rio de Janeiro, estão tentando continuar a vadiação em terras cariocas.
21.5.08
"Quem não pode com Besouro..."
Uma personagem que aparece muito na músicas da capoeira, e ainda mais nas lendas mais fantásticas da capoeira é o famoso e misterioso Besouro Preto de Mangangá. Nascido na cidade de Santo Amaro de Purificação em 1885, Manoel Henrique Pereira se mitificou como um dos maiores capoeiras, o Besouro Preto de Mangangá, ou Besouro Cordão de Ouro, ainda que morresse com menos de trinta anos de idade.
No livro “Bimba, Pastinha e Besouro de Mangangá, três personagens da Capoeira Baiana”, o autor, Antonio Liberac Cardoso Simões Pires descreve as mudanças na prática da capoeira (especialmente a mudança da capoeira da rua à academia) no começo do século XX pelas vidas de Mestre Bimba, Mestre Pastinha, e Besouo Preto.
O autor também descreve as pesquisas que fez para conseguir informações, especialmente sobre a figura de Besouro Preto. Em alguns momentos, ele até duvidou a existência de um homem tão legendario que fugiu da polícia vooando e não podia ser ferido por causa do seu corpo fechado. O autor então pesquisou nos registros dos cais de diversas cidades da
Noca de Jacó tornou-se o principal informante sobre a vida e obra de Besouro de Mangangá, pis ele guardou casos na memória, acompanhou de perto a vida do mestre, nos momentos mais calmos, mais íntimos, quando estava a trabalho na lancha “Deus me Guie”, nas galinhadas e nas rodas da capoeira, enfim, em seus momentos de paz e guerra. Daí não foi à toa que Noca de Jacó ficou conhecido na cidadeo mais antigo capoeira, ainda vivo na época da realizaçào das pesquisas. Segundo ele, Besouro teria sido uma pessoa que não gostava de arraças, nem covardia, era um homem bom, mas valentão. Quando estava em Santo Amaro, Besouro ficou mais em seu reduto, no Trapiche. Às vezes, viajava de saveiro. Tinha que lever as mercadorias, atrevessando a Bahia de Todos os como . Besouro desafiava quem tinha nome, quem poderia aumentar-lhe a fama, Santos o costume de todo o valentão e, às vezes, também tinha que se desfrontar com a polícia que também possuia, entre seus quadros, valentões. E foi o que occureu na época em que Besouro ainda trabalhava na lancha: como
“Acontecido se deu no Largo da Cruz. O soldado desafiou Besouro (Besouro respondeu)volta ,volta que eu não quero te fazer nada. Besouro pegou o révolver da cavalaria.”
… Besouro correu pelo Beco do Xaréu, atravessou a ponte. [O soldado] José Costa, que corria muito, consegiu aproximar-se de Besouro, mas foi atingido pelos disparos de révolver de Besouro. A valentia de Besouro é lembrada por todos. Nesse caso, ele acertou dois tiros no braço do policial. O fato de ele ter enfrentado a polícia o tornou um herói, um mestre para os meninos do Trapiche de Baixo, onde jogavam capoeira descalços e de roupas comuns. Sua fama acabou virando lenda. A população foi produzindo histórias sobre ele em que os casos e coisas impossíveis, misturavam-se com o possível… Contaram-me certa vez que ele tinha poderes de desaparecer, transformer-se em besouro e voar fugindo de seus inimigos. Alías, suas fugas fantásticas da perseguição policial são um traço marcante em todas as aventuras guardadas na memória popular…
O livro é muito bom, e é descreve muito bem a relação de capoeira com a rua, a violência, e a polícia no começo do secúlo XX.
Pode achar esse livro na biblioteca do Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia ou, em muitas das livrarias perto do Centro da cidade de Salvador.
13.4.08
Os orixás: a história da criação de homem
Reginaldo Prandi, sociólogo da USP, pesquisou sobre os orixás e colocou vários mitos sobre eles no seu livro, Mitologia dos Orixás.O livro apresenta 301 mitos sobre Nanã, Xango, Oxalá, Oxumare, Ogum, e mais. Vamos compartilhar alguns mitos aqui no blogue, começando com este sobre a criação do homem:
Nanã fornece a lama para a modelagem do homem
Dizem que quando Olorum encarregou Oxalá
de fazer o mundo e modelar o ser humano,
o orixá tentou vários caminhos.
Tentou fazer o homem de ar, como ele.
Não deu certo, pois o homem logo se desvaneceu.
Tentou fazer de pau, mas a criatura ficou dura.
De pedra ainda a tentative foi pior.
Fez de fogo e o homem se consumiu.
Tentou azeite, água e até vinho-de-palma, e nada.
Foi então que Nanã Burucu veio em seu Socorro.
Apontou para o fundo do lago com seu ibiri, seu cetro e arma
e de lá retirou uma porção da lama a Oxalá,
o barro do fundo da lagoa onde Morava ela,
a lama sob as águas, que é Nanã.
Oxalá criou o homem, o modelou no barro.
Com o sopro de Olorum ele caminhou.
Com a ajuda dos orixás povoou a Terra.
Mas tem um dia que o homem morre
e seu corpo tem que retournar à terra,
voltar a natureza de Nanã Burucu.
Nanã deu a material no começo
Mas quer de volta no final tudo o que é seu.
O livro está disponível no acervo da FICA-DC para você ler mais.
11.9.07
Crie seu próprio arquivo: As Sete Portas da Bahia
Quer criar um arquivo para seu grupo? As Sete Portas da Bahia, com texto e desenhos por o famoso Carybé, é um livro que um bom arquivo da Capoeira Angola não deve faltar. Carybé nasceu na Argentina, e começou de desenhar aos 10 anos da idade. Estudou belas artes no Rio de Janeiro, e aos 27 anos, visitou Bahia pela primeira vez. Aos 49 anos, se mudou para Bahia, e trabalhou desenhando a vida cotidiana dos baianos.
Em As Sete Portas da Bahia, Carybé descreve vários aspetos da cultura baiana, inclusive a capoeira, o Largo do Pelourinho, a Festa de Yemanjá, o candomblé, e mais. Aqui ele fala um pouquinho sobre os pescadores e as canções que cantam enquanto puxando rede.
A areia é alva; eles escuros. À luz intense da manhã sobe um cântico... centenas de vozes respondem.Reconhece essa linda música? É um dos corridos que Mestre Moraes canta no CD do Grupo Capoeira Angola Pelounriho, “GCAP Tem Dende”!
Os pés se fincam na areia, ritmando. Quando a sucção aumenta o peso da rede, cedem um passo e curvam mais os lombos musculosos:
A baleia me pediu
Aderecô Aninha
Pra fazê uma devoção
Aderecô Aninha
Vou pegá na jangadinha
Aderecô Aninha
Vou me embora velejá
Aderecô Aninha
O vento pegou de proa
Aderecô Aninha
Até da volta do má
Aderecô Aninha
Vou me embora que é noite
Aderecô Aninha
Eu não quero navegá
Aderecô Aninha
Fazê dos óio candeia
Aderecô Aninha
Até hora de vortá…
Para um capoeira, As Sete Portas da Bahia é super interessante porque, como no exemplo, achará aspetos da capoeira em outros partes da cultura baiana.



