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27.9.10

Capoeira em Recife: os desordeiros e os brabos

   
Sabemos bastante sobre a história de capoeira no Rio de Janeiro através das pesquisas de Jair Moura e Carlos Eugênio Líbano Soares, e estamos aprendendo ainda mais sobre ela na Bahia pelos estudos feitos por Frede Abreu, Antonio Liberac Cardoso Simões Pires, Pimentinha, e outros. Mas, a cidade de Recife, capital do estado de Pernambuco também tem um história rica de capoeira, embora pouco conhecida e estudada.

Bernardo Alves, um pesquisador que escreveu um livro sobre a capoeira no estado de Pernambuco fez uma entrevista com o grupo de capoeira CICA (Centro de Instrução de Capoeira Angola) que apareceu no jornalzinho do grupo, chamado Biriba, em abril de 2002. Aqui tem alguns trechos da conversa bem interessante:
CICA: O fato das malta se reuniram para brigar, essa rivalidade que se criou entre elas, nos mostra que não houve uma união em torno de um trabalho, só o choque. Será que isso também determinou o não-desenvolvimento da capoeira em Pernambuco?

Bernado: Eu acredito que não. Aquilo ali era um partidarismo. Então havia aqueles que torciam pelas bandas mais famosas do 4o Batalhão de Infantaria e os caras que torciam pela outra que também era famosa, a do Pedro espanhol, o Espanha. Eram os marginais fazendo a segurança dos oficiais. Eles iam tocando ali e os capoeira na frente fazendo a segurança. Na verdade, eles não estavam interessados em fazer segurança. Eles queriam jogar. Se você tirasse os capoeiras que torciam por essa banda, os outros quebravam a banda no cacete. Mas eu vou chegar lá onde você quer. Então havia essa coisa do partidarismo. Na Bahia foi preservada porque o baiano preservou a capoeira nas academias. Se não tivesse criado as academias, tinha acontecido o mesmo que aconteceu aqui. Os daqui foram expulsos e os de lá ficaram, A grande maioria dos capoeiras da Bahia ficaram lá. Então eles transformaram aquela coisa numa dança, coisa e tal, eles a disfarçaram, houve um disfarce e aqui não teve isso. Eu acredito, que não se passou mais de geração pra geração e acabou. Não houve o repasse e lá na Bahia houve porque existiram as academias… tem sempre aqueles caras que diziam não, isso é coisa do povo, tem que ser espontânea, não pode ser em academia. Mas se não fossem as academias, também na Bahia teria sumido.

CICA: Você não encontrou referências a agrupamentos organizadores. E quanto aos palcos das lutas?

Bernado: Era aquela coisa dos bairros. O capoeira da Madalena não entrava nos Coellos nem danado. Não ia de jeito nenhum. São as tribos. Isso é coisa muito primitiva.

CICA: Sem uma sistematização, nem academia, a capoeira aqui era mais malandragem… Então antigamente só eram os brabos e os valentes que a praticavam?

Bernado: Sim, lembrou bem. Tinham essas duas correntes na capoeira de Pernambuco. Que esse aqui era brabo e esse aqui era desordeiro. O brabo era um cara mais ético, tinha mais escrúpulo. E o desordeiro era aquele cara que era bagunceiro mesmo. Chegava e quebrava o cacete. Mas o brabo, não. O brabo era na dele, era muito mais perigoso que o outro. Não era disputa de técnica. Era luta mesmo para derrubar. Só que o Nascimento Grande era um cara muito interessante. Ele era engraçado. Quer dizer, ele derrubava o cara e depois botava o cara nas costas e levava ao hospital e dizia “olhe, cuide bem do meu compadre, aqui está o dinheiro, viu?”

CICA: Existia alguma ética entre os capoeiristas no combate corpo a corpo?

Bernardo: Entre os brabos.

CICA: E entre os desordeiros?

Bernardo: Com os desordeiros era vale tudo e mais um pouquinho.
Bem interessante! Sabe alguma coisa sobre a história da capoeira na sua cidade?

Leiam a conversa inteira no jornalzinho que está disponivel no acervo da FICA-DC.
  

10.7.10

Lembrando M Canjiquinha (e canjiquinha quente!)

   
O que um mestre de capoeira tem a ver com Carmen Miranda?

Leiam este trecho do livro “Capoiera Angola - Ensaio Sócio Etnografico” pelo escritor, anthropólogo e folclorista Waldeloir Rego para saber:
Canjiquinha (Washington Bruno da Silva) nasceu em Salvador a 25 de setembro de 1925. Foi discípulo do famoso capoeirista Raimundo Aberrê, natural de Santo Amaro de Purificação.

A respeito do seu apelido, explica que foi pôsto por seu amigo de nome Dálton Barros, em 1938, devido ao samba-batuque de Roberto Martins, Canjiquniha quente, cantado por Cármen Miranda com o Conjunto Regional de Benedtio Larcerda, gravado pelo Odeon, em 1937… o qual era a única coisa que sabia cantar e o fazia constantemente, por isso seu amigo tomou a iniciativa do apelido.

Canjiquniha é um capoeira jovem e ágil, fazendo com que se destaque é no canto e no toque. Canta como bem poucos e com um repertório vastíssimo, inclusive com uma grande facilidade de improvisor e de todos é quem mais tem contribuído para a adaptação de outros cânticos do folcloreà capoiera. Uma boa parte das cantigas dêste ensaio foram recolhidas de Canjiquinha.

Foi de todos os capoeiristas baianos o mais convidados para exhibições, viagens pelo interior e for a do estado, assim como o que mais atuou no cinema, em longas e curtas metragens… Como mestre de capoeira, trabalhou nos longa-metragens “Os Bandeirantes”, “Barravento”, “O Pagador de Promessas”, “Senhor dos Navegantes”, “Samba”, e inúmeros curta-metragens.

Cuidado com aquelas músicas que não saim da cabeça! Pode conseguir até um novo apelido!
   

23.6.10

A velha guarda de capoeira, segundo Rego

   
O livro “Capoiera Angola - Ensaio Sócio Etnografico” escrito pelo anthropólogo e folclorista Waldeloir Rego e publicado em 1968 é um dos documentos mais importantes que existe hoje sobre a capoeira.

O livro tem muita informação sobre a capoeira, inclusive uma história da capoeira, a origem da palavra “capoeira”, e informações basicas sobre os instrumentos. Além disso, e mais interessante para um aluno de capoeira, é a colecção grande de varias músicas e o capítulo seguinte que fala sobre os capoeiristas famosos da epoca.

Já postamos a parte sobre Mestre João Grande. Aqui temos mais sobre outros capoeiras:
Muito conhecido dos capoeiristas atuais foi Pedro Mineiro… Também deixaram fama, na Bahia, Chico da Barra, Ajé, Chico Cazumbá, Ricardo das Docas, Antônio Maré, Zé Bom Pé, Vitorino Braço Torto, Raimundo Cachoeira, Zacaria Grande, Nôzinho, Bilusca, Piroca Peixoto, Zé do Saco, Samual da Calçada, Sete Mortes, Aberrê, Patu das Pedreiras, Hilário Chapeleiro, Cassiano Balão, Bigode de Sêda, Doze Homens, Tiburcinho de Jaguaripe, Zeca Cidade de Palha, Nô da Emprêsa de Carruagem, Pacífico do Rio Vermelho, Bichiguinha, Chico Me Dá, Edgar Chicharro, Inimigo Sem Tripa, Giote, Neco Canário Pardo, Bôca de Porco, Dendê, Gazolina, Espinho, Dadá e Siri de Mangue.

Pedro Porreta ficou como símbolo da desordem, da valentia. Quando garôto, ouvi muito as pessoas idosas falarem dêsse capoeira e quando a criança era tranquina e gostava de bater nas demais, ao repreendê-lá, perguntava se era Pedro Porreta.

De Chico Três Pedaçoes contou-me o capoeira Canjiquinha (Wasington Bruno da Silva) que era um negrão inimigo de um outro capoeirista chamado Matatu. De certa feita, armou uma emboscada para seu inimigo. Escondeu-se na esquina da rua do Engenho Velho, bem na entrada para quem vai para o solar Boa Vista, hoje asilo São João de Deus e quando Matatu se aproximou distraído, deu-lhe uma facada no peito, mas a faca entrou pela clavícula adentro, partindo-se em três pedaços. Escapou à morte, ficando conhecido por Chico Três Pedaços.

Najé foi outro capoeirista famoso de Coqueiro de Paraguaçu, mas como gostasse muito de ficar na cidade de Najé, ficou conhecido pelo topônimo. Muito ligado ao pessoal de candomblé, de modo que, ao vê-lo, costumava pilheriar com êle cantando: -

Najé
Najé, Najé
Ogun Já orô!

Cantiga chamando atenção para o orô (ritual) de Ogun Já, especial de Ogun cuja caracteristica principal é o sacrifício de cachorro que se lhe faz, sacrifício êsse que e feito raramente e o seu processo e cantigas durante o mesmo diferem dos demais, não cabendo aqui maiores detalhes sôbre o assunto.
Esse livro é muito raro e muito procurado hoje em dia. Se você consiga uma copia, guardê-la como todos seus pedaços. É patrimônio da nossa história!

Como conseguiram a galera do seu grupo os nomes de guerra? Como é que vocês vão ser lembrados quarenta anos daqui?

Postamos mais deste livro sobre a velha guarda da capoeira no futuro!
   

7.4.09

Não havia nem mulher nem sacerdote entre eles...

Bem antes da criação de youtube, os grandes jogos de capoeira eram lembrados. Em alguns casos raros, alguem escreveu sobre os jogos, movimento por movimento. O trecho em baixo vem do livro, A Cidade das Mulheres (The City of Women) por Ruth Landes. O livro é um recurso sem par, ofrecendo uma perpetiva norteamericana sobre a vida popular na cidade de Salvador, Bahia nos anos trinta.

Aqui, ela descreve uma roda da capoeira que viu na rua com sua grande amigo (e amante!) o antropologo e intellectual, Edison Carneiro:

Chegarámos ao lugar onde os homens se preparavam para a capoeira. Os espectadores se apinhavam à volta de uma grande roda e não havia nem mulher nem sacerdote entre eles. Num ponto do interior da roda estavam três negros altos, cada qual segurando um berimbau, com uma das extremidades apoiada no chão. Logo surgiram outros instrumentistas – um com um chocalho, outro com um pandeiro. Édison e os outros me ajudaram a chegar à frente e ficamos contentes por mudar o assunto.

Dois capoeiras estavam agachados diante dos músicos. Um era o campeão Querido-de-Deus, cujo nome de batismo era Samuel. Era alto, mulato, de meia-idade, musculoso, pescador de profissão. O seu adversário era Onça Preta, mais moço, mais baixo, mais gordo. Estavam ambos decalçalso, usavam camisas-de-meia listadas, um de calça branca, outro de calça escura, um de chapeu de feltro, outro com um bone que depois trocou por um palheta. Agachados, de chapeu e descalços, tinham um dos braços apoiado nas coxas e olhavam diretamente para a frente, descansando. Eram obrigados a guarder siléncio e a obrigação estendia-se à assistência.

A orquestra deu início à diversão, numa desafinada invocação; e esse fundo musical monótono, também, era essencial à ocasião. Era uma espécie de lamentosa tessitura anasalada, dentro da qua los homens realizavam maravilhas acrobáticas, sempre dentro da batida correta, enquanto a bacteria cantava versos zombeteiros:

Tava no pé da Cruz
Fazendo minha oração
Quando chega Catarino
Feito a pintura do Cão
E ê, Aruandê!
Iaiá, vamos embora!
Iaiá, pelo mar afora!
É faca de ponto!
Iaiá, é de furá!
Iaiá, joga pra cá!
Iaiá, joga pra lá!
Ê ê, viva meu mestre!
Iaiá que me ensinou
Ioiô, a malandrage
Iaiá, a capoeirage!
Iaiá, vorta do mundo
Ioiô que o mundo dá!

Era uma canção de desafio, esperança e resignação, com fragmentos de idéias de rebeldia. Não possuía um tema único, bem trabalhado, mas resumia um tipo de vida e de protesto. E fazia começar a luta.

Querido-de-Deus balançava os quadric enquanto encarava os adversário, mostrando-lhe os dentes; e avaliava as suas possibilidades. A luta envolvia todas as partes do corp, exceto as mãos, precaução exigida pela polícia para evitar danos. À medida que os movimentos se amoldavam à música, eles se movimentavam numa sequência lenta, como de sonho, que mais parecia uma dança do que uma luta. Como o regulamento estipulava que os capoeiras não deviam machucar-se uns aos outros, os golpes tornavam-se posturas acrobáticas, de valor para o cômputo final, com nomes classificação. Havia vários tipos de capoeira, com sutilezas na forma e na sequência dos golpes, e no modo de tocar os berimbaus.

Querido era prodigiosamente ágil nos difíceis encontros formais com o adversário e sorria constantemente, enquanto as canções rituais rolavam:

Disseram à minha mulher
Que capoeira me venceu.
A mulher jurou pé firme
Como isso não se deu.

E os berimbaus mudaram de toada mais uma vez:

Era eu, era meu mano,
Era meu mano mais eu.
Meu mano alugou uma casa…
Nem ele pagava, nem eu.

Impertinentemente, com movimentos bonitos, vagarosos e calculados. Querido deu uma leve cabeçada, sem tirar o chapéu da cabeçada, na boca do estômago do adversário, derrubando-o, de modo que ele caiu de cabeça. Então a orquestra estrugiu triufante:

Zum-zum-zum
Capoeira mata um!
Tiririca é faca de cortá.
Prepar’a barriga pr’apanhá!

Silenciados os ecos de desafio, terminada a rodada, os dois homens andavam e corriam sem descanso em sentido contrário aos ponteiros do relógio, um atrás do outro, o campeão à frente com os braços levantados, Onça Preta segurando-lhe os pulsos por trás, enquanto a orquestra cantava e tocava, enfadonha:

No tempo qu’eu tinha meu dinheiro,
Camarada me chamava de parente
Quando meu dinheiro se acabou
Camarada me chamou de valente.

Aos poucos, repousados, o da frente girava para encarar o de trás e os dois se evitavam ao compass das cantigas, sem jamais parar, balançando-se de um pé para o outro, à espera de golpes.

Capoeira vai te bate
Camarada, bota sentido!

Advertiam os berimbaus. Os dois se defrontaram, Querido avançando, Onça reta se esquivando, sempre no ritmo. Como Querido avançasse, curvando o busto e abaixando a cabeça para golpear a cintura do outro, Onça Preta inclinou-se para a frente, tentando evitá-lo. Na verdade apenas abriu uma brecha, por onde Querido entrou com a perna direita, mantendo a esquerda esticada rente ao chão para sustentá-lo, Onça Preta atirou frouxamente os braços para trás e caiu para a frente por cima da cabeça que ia atingi-lo, descrevendo um arco perfeito. Rindo calmamente, como num elogio, os dois se leventaram, gingando em círculos, para relaxar os músculos, enquanto a orquestra aplaudia:

Ê aquindérreis!
Ê Aruandê!
Que vai faze
Com capoeira?
Ele é mandingueiro
E sabe jogá…

Empenharam-se novamente em luta e de novo Querido foi o atacante, quase agachado como numa dança russa, oscilando, os braços curvados para a frente para equilibrar-se. Em vez de insister na cabeçada como antes, inclinou-se d elado e, de repente, ergueu o corpo. Onça Preta se curvou para atacar, mas Querido pôs todo o peso na perna direita e raspou a cabeça do adversário com a esquerda, fazendo-o cair mais uma vez esticado!

Agora outro capoeira insistia em entrar na roda. Já o tentara antes, mas não lhe tinham dado atenção. Impaciente, empurrou Onça Preta para trás, apontado, indignado, para o canto ondeos juízes marcavam a giz, no chão, os pontos que Onça Preta não soubera ganhar. E Onça Preta, amuado, lhe cedeu o lugar.

Querido, o herói, enxugou o suor do rosto e das costas e tirou o chapéu da cabeça para refrescá-la. Durante todo o tempo os espectadores se mantiveram quietos, apenas mexendo os pés para aliviar a posição e a excitação anterior. Daí a pouco os berimbaus choramingavam uma invocação para a nova rodada:

Quem te ensinou essa mandinga?
- Foi o nêgo de sinhá.
O nêgo custou dinheiro,
Dinheiro custou ganhá.

Cai, cai Catarina
Sarta de má, vem vê Dalina

Amanha é dia santo
Dia de Corpo-de-Deus
Quem tem roupa vain a missa,
Quem não tem faz como eu.

Cai, cai Catarina…

Para mim aquela era uma exibição incongruente e maravilhosa, para os outros era maravilhosa e interessante absorvente. Para eles estava certo. Mas os versos me levaram a conjecturas acerca de escravidão, rebeldia e escárnio e eu estava perplexa ante o estilo do espetáculo, que robava à capoeira o seu aguilhão original. A polícia suprimira o aguilhão e os negros tinham convertido o remanescente numa fantástica e pungent dança. As canções teriam ainda significação para o povo? Lembrariam as lutas que haviam inspirado ou apenas dramatizavam os homens negros, como o candomblé dramatizavam as mulheres negras? As camadas de espectadores estavam imóveis, de rostos impassíveis.

De novo o desafiante e o campeão começavam a correr com os joelhos dobrados, os braços pendendo molemente, Querido diveritindo-se com pequenos e complicados movimentos dos pés. De repente, um rapaz pulou no centro da arena sacudindo uma vasilha com dinheiro. Acabava de correr o chapéu recolhendo contribuições para os lutadores; e a orquestra, que manda no espetáculo, decidira que, em vez de repartir o dinheiro, devia deixá-lo no chão para que um novo par tentasse apanhá-lo com a boca, cada parceiro rechaçando o outro à moda da capoeira. O rapaz annuncio a decisão e colocou a vasilha no chão, enquanto os berimbaus zombavam:

Brincá com capoeira?
Ele é bicho farso…

E Querido ganhou! Mas, com o brio de um campeão, virou a vasilha no chão para começar a luta de novo:

Ora, pode vadiá!

Desta vez o recém-vindo ganhou. A turba dissolveu-se, inconfortável, sob o sol escaldente das duas horas…


Clique aqui para aprender mais sobre Ruth Landes.

Agradecmos a Lauren pela ajuda com a tradução.

30.9.08

Cantos de guerra dos Nagoas & dos Guaiamuns

Este trecho vem do jornalzinho brasileiro “Capoeirando”, edição junho-julho-agosto de 1996:
A relíquia de um "canto de capoeira" do século passado

No Toque de Berimbau [a parte da revista dedicada à musica] o primeiro registro da musicalidade da capoeira do século XIX: um canto de desafio entre os dois grandes grupos de capoeira- os Nagoas e os Guaiamuns.

Os Guaiamuns cantavam:

Terezinha de Jesus
Abre a porta e apaga a luz
Quero ver morrer Nagoa
Na porta do Bom Jesus

Os Nagoas respondiam:

O castelo içou bandeira
São Francisco repicou
Gaiamum está reclamando
Manuel Preto já chegou

Essa letra faz parte de um canto de capoeira e foi registrada por Plácido de Abreu em sua obra Os Capoeiras*, em 1886, na cidade de Rio de Janeiro. Esse canto foi chamado de "toada" pelo autor e revela o conflito entre os grupos de capoeira no século XIX: os Gaiamuns e os Nagoas. Esses grupos encontravam-se dividos em diversas facções correspondentes às freguesias da cidade.

Atualmente, essa "toada" tem um grande valor histórico, por confirmar a presença do canto, nos conflitos, o nome dos grupos de capoeira e revelar a presença de Manoel Preto, enquanto um dos líderes dos Nagoas.

Interpretando essa "toada" podemos entender um pouco mais da cultura da capoeira na tradição das maltas do século XIX. Esse canto é o mais antigo, no que se refere a um registro datado da musicalidade na prática dos capoeira.

• ABREU, Plácido de. Os Capoeiras Rio de Janeiro. Tip. Escola Seraphim Alves de Brito 1886. p. 03
No seu livro Hidden History of Capoeira (A história escondida da capoeira), pesquisadora Maya Talmon-Chvacier ofrece mais idéias sobre estes cantos:
Documentos e illustrações do começo do século XIX mostram que instrumentos musicais eram tocados durante o jogo de capoeira, mas não existe uma descrição das músicas. Só no fim do século, vários autores falaram sobre as músicas relacionadas à capoeira. Abreu escreveu que antes que as maltas entravam em briga, se desafiavam com cantos como esta que os Guaiamus cantavam:

Terezinha de Jesus
Abre a porta e apaga a luz
Quero ver morrer Nagoa
Na porta do Bom Jesus

E seus rivais respondiam:

O castelo içou bandeira
São Francisco repicou
Guaiamu está reclamando
Manuel Preto já chegou

Manuel Preto era o nome de guerra do líder do grupo Santana e os inimigos tinham muito medo dele. Os Nagoas utilizavam imagens relacionadas ao seu mundo espiritual. A bandeira era usada para comunicar com o mundo dos mortes. Usavam bandeiras nos funerais. São Francisco, um santo católico, usou a batida do tambor para superar os Gaiamuns. Os africanos comparavam seus deuses aos santos católicos e rezavam à eles através dos santos. São Francisco era sincretizado com o orixá Orunmila, o grande deus de humanidade e o maior conselhor. Ele revela o futuro através do segredo de Ifa, o oráculo supremo. Ele é um grande curadeiro. Os tambores avisam contra o perigo iminente mas também comunicam com outros mundos e possuem poderes sobrenaturais que dão tanta força à Manuel Preto que “Guaiamu está reclamando”.

Os Guaiamus eram influenciados em maior parte pelo cristanidade, demostrado por seu canto de guerra e o uso dos nomes Therezinha e Jesus e as imagens “abra a porta e apaga a luz” que significa a idéia de apagar a vida dos Nagoas e abrir a porta ao céu para as almas deles. Músicas cantadas para desafiar um adversário são comuns na cultura ioruba no contexto de guerra. Eles têm muito poder psicólogico. Evocando a memória de vitórias anteriores, guerreiros poderosos, espiritus, e os ancestrais, os cantos eram usados para inspirar os lutadores e assustar os inimigos. Como a cultura ioruba tinha muito influencia sobre os escravos desde o meio do século XIX para cá, e os capoeiras eram associados com beligerância, podemos ver porquê o desafio ritual era ligado com a música no fim do século XIX. Essas músicas eram caracterizadas como “cantos de guerra”.
O jornalzinho e o livro são excellentes recursos, cheios de informações interessantes sobre a capoeira. Nos meses que vêm postaremos mais deles.

19.8.08

Crie seu próprio arquivo: Mandinga, manha & malícia

Torpedeira Piauí
Coraçada na Bahia
Marinheiro absoluto
Chegou pintando arrelia
Quando vê cobra assanhada
Não mete o pé na rodia
Que a cobra assanhada morde
Se eu fosse a cobra eu mordia
Mataram Pedro Mineiro
Dentro da Secretaria

O livro Mandinga, Manha & Malícia, uma história sobre os capoeiras na capital da Bahia (1910-1925) escrito por Adriana Alberta Dias, também conhecida como Pimentinha nas rodas de Salvador, é um ótimo livro, muito bem escrito e muito informativo.

Pimentinha analisa as vidas dos capoeiras em Salvador durante este período. Ela, utilizando documentos oficias, artigos da imprensa, e entrevistas com velhos capoeiristas, mostra como os capoeiristas usavam a mandinga e a malícia não só nas rodas de capoeira mas também no seu dia-dia para sobreviver e, e as vezes ainda mais importante, para ganhar fama nas ruas. Ela reflete como isso influenciava a prática da capoeira, dos movimentos às músicas e cantigas. A ladainha em cima abre o capítulo sobre o famoso Pedro Mineiro. Aqui, um trecho do capítulo:

… Não era natural do estado da Bahia, havia nascido em torno do ano de 1887 na cidade de Ouro Preto, estado de Minas Gerais, por isso ficou conhecida pela alcunha de Pedro Mineiro. Aos seus vinte e poucos anos já se encontrava em Salvador, sabia ler, escrever, foi morador da freguesia do Pilar, e trabalhou como carregador e marítimo. Era muito conhecido pelos agents da ordem em virtude do seu comportamento valentão e das façanhas praticadas nas ruas de Salvador. Seu nome aparecia com freqüencia na coluna policial da imprensa baiana, sendo chamado de gatuno, capadócio, criminoso, facínora e célebre desordeiro. O principal palco de suas desordens era o Cais Dourado, mas também frequentava o “27 do Tabuão” e o “botequim do Galinho”. Costumava arrumar desavenças com todo tipo de gente, outros capoeira, mulheres, desordeiros, indivíduos comuns, marinheiros e, principalmente, policiais.
Uma das aventuras de Pedro Mineiro inspirou esta ladainha. No que foi chamado "o crime do Saldanha", porque aconteceu na Rua do Saldanha, Pedro Mineiro e alguns amigos capoeiras desafiaram um grupo de marinheiros:
No dia 26 de dezembro um outro conflito a bala explodiu entre capoeiras e um grupo de marinheiros do torpedeiro Piauhy, chegado do Rio de Janeiro há três meses. O palco da desordem foi o “botequim do Galinho”, onde os marinheiros jantavam, quando foram atacdos pelos capoeiras Pedro Mineiro e Sebastião de Souza, e por um individuo chamado Antônio José Freire, também conhecido por Branco.

O tireteio durou cerca de quinze minutos, provocando grande alvoroço e muita correria. Todos os botequins, lojas, armazéns e residências da região fecharam portas e janelas. Na luta, dois mariinheiros foram mortos…

Os demais marinheiros, feridos, conseguiram escaper e voltar ao navio. Pedro Mineiro, Sebastião e Branco tentaram fugir pelas ruas da Sé, mas foram presos por guardas civis e pessoas do povo, conduzidos aoposto policial mais próximo, e de lá transferidos para a Secretaria de Segurança Pública.
Como Pimentinha explica, ninguem sabe direito a causa da briga entre os marinheiros do Piauhy e os capoeira, se fosse por causa de uma mulher, ou se um sargento tivesse mandado os capoeiras atacar os marinheiros para vingar uma refrega que tinha acontecido alguns dias antes. De qualquer forma, dois dias depois da briga, houve um inquérito na Secretaria. Enquanto os capoeiristas respondiam as perguntas:
… um dos marinheiros do Piauhy, sentindo-se insultado, atirou contra Pedro Mineiro dentro da chefatura de polícia, diante das próprias autoridades. Assim, de acusado, Pedro Mineiro passou também a ser vítima, pois ficou gravemente ferido, atingido no ombro, na perna, e ma região lombar.

Esse ataque provocou, evidamente, uma enorme confusão, com mais de vinte praças de poliícia, marinheiros, oficiais de justiçia e o delegado atropelando-se na correria, fato que permitiu a fuga de Branco e Sebastião… [Sebastião foi] perseguido por um marinheiro até a Rua de Faísca, onde recebeu uma facada tão profundo nas suas costas que chegou a ter os seus rina atingidos.
Parece que Branco consegiu fugir. Os marinheiros foram castigado pelo capitão do Piauhy e os capoeiras foram levados ao hospital, onde ficaram sob a guarda da polícia.

O crime e a condição de Pedro Mineiro foram “manchetes de primeira pagina” na imprensa baiana. Enquanto isso, o capitão do Piauhy e o chefe de polícia trocaram correspondência se acusando de incompetência. Depois de uma tentativa de suicidar-se, que também saiu nos jornais, Pedro Mineiro morreu no dia 15 de Janeiro:
… Pedro José Viera veio a falecer no Hospital Santa Isabel, em virtude da impossibilidade de extração da bala de um dos tiros recebidos … Tinha 27 anos de idade, e foi enterrado no cemitério da Quinta dos Lázaros.
Como já falei, o livro é muito bom, tem muitas histórias interessantes e muitos fatos importantes. Vale a pena adicionar a sua biblioteca.