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23.6.10

A velha guarda de capoeira, segundo Rego

   
O livro “Capoiera Angola - Ensaio Sócio Etnografico” escrito pelo anthropólogo e folclorista Waldeloir Rego e publicado em 1968 é um dos documentos mais importantes que existe hoje sobre a capoeira.

O livro tem muita informação sobre a capoeira, inclusive uma história da capoeira, a origem da palavra “capoeira”, e informações basicas sobre os instrumentos. Além disso, e mais interessante para um aluno de capoeira, é a colecção grande de varias músicas e o capítulo seguinte que fala sobre os capoeiristas famosos da epoca.

Já postamos a parte sobre Mestre João Grande. Aqui temos mais sobre outros capoeiras:
Muito conhecido dos capoeiristas atuais foi Pedro Mineiro… Também deixaram fama, na Bahia, Chico da Barra, Ajé, Chico Cazumbá, Ricardo das Docas, Antônio Maré, Zé Bom Pé, Vitorino Braço Torto, Raimundo Cachoeira, Zacaria Grande, Nôzinho, Bilusca, Piroca Peixoto, Zé do Saco, Samual da Calçada, Sete Mortes, Aberrê, Patu das Pedreiras, Hilário Chapeleiro, Cassiano Balão, Bigode de Sêda, Doze Homens, Tiburcinho de Jaguaripe, Zeca Cidade de Palha, Nô da Emprêsa de Carruagem, Pacífico do Rio Vermelho, Bichiguinha, Chico Me Dá, Edgar Chicharro, Inimigo Sem Tripa, Giote, Neco Canário Pardo, Bôca de Porco, Dendê, Gazolina, Espinho, Dadá e Siri de Mangue.

Pedro Porreta ficou como símbolo da desordem, da valentia. Quando garôto, ouvi muito as pessoas idosas falarem dêsse capoeira e quando a criança era tranquina e gostava de bater nas demais, ao repreendê-lá, perguntava se era Pedro Porreta.

De Chico Três Pedaçoes contou-me o capoeira Canjiquinha (Wasington Bruno da Silva) que era um negrão inimigo de um outro capoeirista chamado Matatu. De certa feita, armou uma emboscada para seu inimigo. Escondeu-se na esquina da rua do Engenho Velho, bem na entrada para quem vai para o solar Boa Vista, hoje asilo São João de Deus e quando Matatu se aproximou distraído, deu-lhe uma facada no peito, mas a faca entrou pela clavícula adentro, partindo-se em três pedaços. Escapou à morte, ficando conhecido por Chico Três Pedaços.

Najé foi outro capoeirista famoso de Coqueiro de Paraguaçu, mas como gostasse muito de ficar na cidade de Najé, ficou conhecido pelo topônimo. Muito ligado ao pessoal de candomblé, de modo que, ao vê-lo, costumava pilheriar com êle cantando: -

Najé
Najé, Najé
Ogun Já orô!

Cantiga chamando atenção para o orô (ritual) de Ogun Já, especial de Ogun cuja caracteristica principal é o sacrifício de cachorro que se lhe faz, sacrifício êsse que e feito raramente e o seu processo e cantigas durante o mesmo diferem dos demais, não cabendo aqui maiores detalhes sôbre o assunto.
Esse livro é muito raro e muito procurado hoje em dia. Se você consiga uma copia, guardê-la como todos seus pedaços. É patrimônio da nossa história!

Como conseguiram a galera do seu grupo os nomes de guerra? Como é que vocês vão ser lembrados quarenta anos daqui?

Postamos mais deste livro sobre a velha guarda da capoeira no futuro!
   

1.7.08

"Os bichinhos sou eu!": Mestre Pastinha e Pedro Porreta

Mais uma história do livro de Mestre Bola Sete, A Capoeira Angola na Bahia. Essa relata uma briga entre Mestre Pastinha, o professor de Mestre Bola Sete, e um dos mais famosos valentões da época, Pedro Celestino dos Santos, vulgo Pedro Porreta.
O Mestre Pastinha chegou a defrontar-se com o pergioso capoeirista Pedro Porreta, que marcou época na Bahia pela sua maneira agressiva de proceder e pela inúmeras desordens que praticava, chegando a enfrentar o famoso Chefe do Esquadrão da Cavalaria, Pedro Azevedo Gordilho, mais conhecido como "Pedrito". A partir de então, foi perseguido implacavelmento pelo Esquadrão, que no entanto, não logrou êxito.

Tudo começou quando Pedro Porreta foi morar em um barraco perto das Rua das Laranjeiras, onde o Mestre Pastinha possuía uma quitanda. Houve um desentendimento entre os dois, terminando numa briga violenta, sendo derrotado no fim, depois de muita pernada de ambos lados, pelo Mestre Pastinha, que no entanto, considerou a luta mais dificil que encontrou pela frente. "Bom menino," respondeu-me o Mestre quando perguntei –lhe sobre a capacidade do seu adversário em briga de rua.

O Mestre Pastinha tinha ido a feira buscar bananas, deixou sua mulher tomando conta da quitanda, quando entrou Pedro Porreta, que não sabia que a mesma pertencia ao mestre. Ao entrar pediu meia-duzia de bananas.

- Não temos, o meu marido foi buscar ainda agora, na feira, respondeu-lhe a mulher do mestre.

Pedro Porreta já ia saindo quando avistou quatro bananas em cima do balcão, virou-se e indagou:

- E estas quarto bananas que estão aí, para quem são?

- São para os bichinhos! disse a mulher do mestre apontando para uma gaiola com dois pássaros.

Pedro Porreta avançou, pegou as bananas, e saiu, dizendo:

- Os bichinhos sou eu!

Ao voltar da feira, assim que entrou na quitanda e estava colocando o pesado cesto de bananas no chão, sua mulher foi-he contando o sucedido. Ao terminar o relato, o mestre saiu imediatamentea procura do desconhecido. Ao chegar na rua encontrou um seu amigo, que a tudo assistira, revelando a identidade e o endereço do indivíduo. O mestre agradeçeu e dirigiu-se a casa de Pedro Poretta, encontrando-o na porta.

Pedro Porreta não suspeitando que ele fosse o dono da quitanda, cumprimentou=o amistosamente: "Como vai mestre? O que deseja?" Ao saber que ele era proprietário da mesma e vinha disposto a obter uma explicação pelo que acontecera, abriu a porta, soltou uma gargalhada e apontou as bananas dentro de uma panela cozinhando. O Mestre Pastinha, notando a expressão zombeteira de Pedro Porreta, virou-se para ele e disse: "Pedro, eu vou levar as bananas assim mesmo, só por causa do seu desaforo de invadir minha quitanda sem a minha presença e zombar da minha mulher."

Ao ouvir isto, Pedro Poretta dirigiu-se ao meio da rua e desafiou-o para lutar.

Mestre Pastinha aceitou o desafio e a briga prolongou-se por vários minutos, sem que ninguém tivesse a coragem de apartá-los, só terminando com uma violenta cabeçada do Mestre Pastinha, atirando-o longe, estendido junto ao passeio. Neste momento aproximou-se um senhor, que morava nas proximidades e depois de inteirar-se do motivo da briga, prontificou-se a pagar a despesa, contanto que encerrassem aquele assunto. Mestre Pastinha não aceitou o dinheiro de tal senhor, dizendo-lhe, "Meu amigo, eu agredeço a sua gentileza mas o que motivou a minha briga com Pedro não foi o dinheiro despesa com as quarto bananas e sim a maneira que ele procedeu." Dizendo isto retirou-se para a sua quitanda e Pedro Porreta mudou-se de seu barraco no dia seguinte.

O livro de Mestre Bola Sete tem ainda mais histórias descrevendo as aventuras de Mestre Pastinha. Vale a pena comprá-lo para ler tudo e incluir no arquivo do seu grupo.

No futuro, postaremos mais sobre Pedro Porreta e sua vida na cidade de Salvador, Bahia.