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13.5.09

Aproveitem o blog de M Moraes

Mestre Moraes, presidente do Group Capoeira Angola Pelourinho, é um dos mais respeitados mestre de capoeira no mundo, reconhecido internacionalmente não só pelo jogo, mas também por sua sabedoria da história e filosofia da Capoeira Angola.

Já apresentamos alguns trabalhos bem interessantes dele aqui no blog, mas agora ele tem seu própio blog. Esse blog é um recurso sem par. Aproveitem e visitem!

Aqui é um exemplo de um posto:

O Mestre Juvenal foi um dos vários mestres que defendeu a Capoeira Angola com a garra de quem defende a própria vida. Aluno do Mestre Samuel Querido-de-Deus, a quem comparava a "um onça"(sic) devido à extrema agilidade daquele. Estivador, como a maioria dos antigos capoeiristas, aproveitava as horas de descanso, após as refeições, na beira do cais para exercitar-se, e aos colegas que quisessem se iniciar na nobre arte.

Quando entrevistado pelo repórter Cláudio Tavares, da revista "O Cruzeiro", em 1948, afirmou ser a capoeira a "sua cachaça", não esquecendo de destacar a Capoeira Angola, "para destacar da Regional de Mestre Bimba" conforme interpretação do repórter.

Mestre Juvenal já não se comportava mais como os tipos de capoeiristas angoleiros, contemporâneos do memorialista Manuel Querino: "[...] pernóstico,excessivamente loquaz, de gestos amaneirados, tipo completo e acabado do capadócio e o introdutor da "capoeiragem" na Bahia". Por força da dinâmica cultural e social, Juvenal já não atendia àquelas características apresentadas por Querino. Cultivava características do seu tempo: musculoso, delgado, mas ágil e elástico,também loquaz e amaneirado. Conforme Tavares, não era um malandro, nem um profissional exclusivo de capoeira, que pudesse ser contratado para qualquer "servicinho" a mando dos grandões. Como outros capoeiristas da época, Juvenal era um trabalhador, um estivador que passava as horas do dia e até da noite no "pesado". Será que essa situação unia mais a capoeira ao capoeirista? Não sei.

Juvenal orgulhava-se do mestre que lhe ensinou os segredos de uma capoeira que "tem golpes para aplicar em qualquer adversário, estando solto ou segurado o angoleiro".

Leam mais no blog.

Agradecemos a Mexicana pela dica.

7.4.09

Não havia nem mulher nem sacerdote entre eles...

Bem antes da criação de youtube, os grandes jogos de capoeira eram lembrados. Em alguns casos raros, alguem escreveu sobre os jogos, movimento por movimento. O trecho em baixo vem do livro, A Cidade das Mulheres (The City of Women) por Ruth Landes. O livro é um recurso sem par, ofrecendo uma perpetiva norteamericana sobre a vida popular na cidade de Salvador, Bahia nos anos trinta.

Aqui, ela descreve uma roda da capoeira que viu na rua com sua grande amigo (e amante!) o antropologo e intellectual, Edison Carneiro:

Chegarámos ao lugar onde os homens se preparavam para a capoeira. Os espectadores se apinhavam à volta de uma grande roda e não havia nem mulher nem sacerdote entre eles. Num ponto do interior da roda estavam três negros altos, cada qual segurando um berimbau, com uma das extremidades apoiada no chão. Logo surgiram outros instrumentistas – um com um chocalho, outro com um pandeiro. Édison e os outros me ajudaram a chegar à frente e ficamos contentes por mudar o assunto.

Dois capoeiras estavam agachados diante dos músicos. Um era o campeão Querido-de-Deus, cujo nome de batismo era Samuel. Era alto, mulato, de meia-idade, musculoso, pescador de profissão. O seu adversário era Onça Preta, mais moço, mais baixo, mais gordo. Estavam ambos decalçalso, usavam camisas-de-meia listadas, um de calça branca, outro de calça escura, um de chapeu de feltro, outro com um bone que depois trocou por um palheta. Agachados, de chapeu e descalços, tinham um dos braços apoiado nas coxas e olhavam diretamente para a frente, descansando. Eram obrigados a guarder siléncio e a obrigação estendia-se à assistência.

A orquestra deu início à diversão, numa desafinada invocação; e esse fundo musical monótono, também, era essencial à ocasião. Era uma espécie de lamentosa tessitura anasalada, dentro da qua los homens realizavam maravilhas acrobáticas, sempre dentro da batida correta, enquanto a bacteria cantava versos zombeteiros:

Tava no pé da Cruz
Fazendo minha oração
Quando chega Catarino
Feito a pintura do Cão
E ê, Aruandê!
Iaiá, vamos embora!
Iaiá, pelo mar afora!
É faca de ponto!
Iaiá, é de furá!
Iaiá, joga pra cá!
Iaiá, joga pra lá!
Ê ê, viva meu mestre!
Iaiá que me ensinou
Ioiô, a malandrage
Iaiá, a capoeirage!
Iaiá, vorta do mundo
Ioiô que o mundo dá!

Era uma canção de desafio, esperança e resignação, com fragmentos de idéias de rebeldia. Não possuía um tema único, bem trabalhado, mas resumia um tipo de vida e de protesto. E fazia começar a luta.

Querido-de-Deus balançava os quadric enquanto encarava os adversário, mostrando-lhe os dentes; e avaliava as suas possibilidades. A luta envolvia todas as partes do corp, exceto as mãos, precaução exigida pela polícia para evitar danos. À medida que os movimentos se amoldavam à música, eles se movimentavam numa sequência lenta, como de sonho, que mais parecia uma dança do que uma luta. Como o regulamento estipulava que os capoeiras não deviam machucar-se uns aos outros, os golpes tornavam-se posturas acrobáticas, de valor para o cômputo final, com nomes classificação. Havia vários tipos de capoeira, com sutilezas na forma e na sequência dos golpes, e no modo de tocar os berimbaus.

Querido era prodigiosamente ágil nos difíceis encontros formais com o adversário e sorria constantemente, enquanto as canções rituais rolavam:

Disseram à minha mulher
Que capoeira me venceu.
A mulher jurou pé firme
Como isso não se deu.

E os berimbaus mudaram de toada mais uma vez:

Era eu, era meu mano,
Era meu mano mais eu.
Meu mano alugou uma casa…
Nem ele pagava, nem eu.

Impertinentemente, com movimentos bonitos, vagarosos e calculados. Querido deu uma leve cabeçada, sem tirar o chapéu da cabeçada, na boca do estômago do adversário, derrubando-o, de modo que ele caiu de cabeça. Então a orquestra estrugiu triufante:

Zum-zum-zum
Capoeira mata um!
Tiririca é faca de cortá.
Prepar’a barriga pr’apanhá!

Silenciados os ecos de desafio, terminada a rodada, os dois homens andavam e corriam sem descanso em sentido contrário aos ponteiros do relógio, um atrás do outro, o campeão à frente com os braços levantados, Onça Preta segurando-lhe os pulsos por trás, enquanto a orquestra cantava e tocava, enfadonha:

No tempo qu’eu tinha meu dinheiro,
Camarada me chamava de parente
Quando meu dinheiro se acabou
Camarada me chamou de valente.

Aos poucos, repousados, o da frente girava para encarar o de trás e os dois se evitavam ao compass das cantigas, sem jamais parar, balançando-se de um pé para o outro, à espera de golpes.

Capoeira vai te bate
Camarada, bota sentido!

Advertiam os berimbaus. Os dois se defrontaram, Querido avançando, Onça reta se esquivando, sempre no ritmo. Como Querido avançasse, curvando o busto e abaixando a cabeça para golpear a cintura do outro, Onça Preta inclinou-se para a frente, tentando evitá-lo. Na verdade apenas abriu uma brecha, por onde Querido entrou com a perna direita, mantendo a esquerda esticada rente ao chão para sustentá-lo, Onça Preta atirou frouxamente os braços para trás e caiu para a frente por cima da cabeça que ia atingi-lo, descrevendo um arco perfeito. Rindo calmamente, como num elogio, os dois se leventaram, gingando em círculos, para relaxar os músculos, enquanto a orquestra aplaudia:

Ê aquindérreis!
Ê Aruandê!
Que vai faze
Com capoeira?
Ele é mandingueiro
E sabe jogá…

Empenharam-se novamente em luta e de novo Querido foi o atacante, quase agachado como numa dança russa, oscilando, os braços curvados para a frente para equilibrar-se. Em vez de insister na cabeçada como antes, inclinou-se d elado e, de repente, ergueu o corpo. Onça Preta se curvou para atacar, mas Querido pôs todo o peso na perna direita e raspou a cabeça do adversário com a esquerda, fazendo-o cair mais uma vez esticado!

Agora outro capoeira insistia em entrar na roda. Já o tentara antes, mas não lhe tinham dado atenção. Impaciente, empurrou Onça Preta para trás, apontado, indignado, para o canto ondeos juízes marcavam a giz, no chão, os pontos que Onça Preta não soubera ganhar. E Onça Preta, amuado, lhe cedeu o lugar.

Querido, o herói, enxugou o suor do rosto e das costas e tirou o chapéu da cabeça para refrescá-la. Durante todo o tempo os espectadores se mantiveram quietos, apenas mexendo os pés para aliviar a posição e a excitação anterior. Daí a pouco os berimbaus choramingavam uma invocação para a nova rodada:

Quem te ensinou essa mandinga?
- Foi o nêgo de sinhá.
O nêgo custou dinheiro,
Dinheiro custou ganhá.

Cai, cai Catarina
Sarta de má, vem vê Dalina

Amanha é dia santo
Dia de Corpo-de-Deus
Quem tem roupa vain a missa,
Quem não tem faz como eu.

Cai, cai Catarina…

Para mim aquela era uma exibição incongruente e maravilhosa, para os outros era maravilhosa e interessante absorvente. Para eles estava certo. Mas os versos me levaram a conjecturas acerca de escravidão, rebeldia e escárnio e eu estava perplexa ante o estilo do espetáculo, que robava à capoeira o seu aguilhão original. A polícia suprimira o aguilhão e os negros tinham convertido o remanescente numa fantástica e pungent dança. As canções teriam ainda significação para o povo? Lembrariam as lutas que haviam inspirado ou apenas dramatizavam os homens negros, como o candomblé dramatizavam as mulheres negras? As camadas de espectadores estavam imóveis, de rostos impassíveis.

De novo o desafiante e o campeão começavam a correr com os joelhos dobrados, os braços pendendo molemente, Querido diveritindo-se com pequenos e complicados movimentos dos pés. De repente, um rapaz pulou no centro da arena sacudindo uma vasilha com dinheiro. Acabava de correr o chapéu recolhendo contribuições para os lutadores; e a orquestra, que manda no espetáculo, decidira que, em vez de repartir o dinheiro, devia deixá-lo no chão para que um novo par tentasse apanhá-lo com a boca, cada parceiro rechaçando o outro à moda da capoeira. O rapaz annuncio a decisão e colocou a vasilha no chão, enquanto os berimbaus zombavam:

Brincá com capoeira?
Ele é bicho farso…

E Querido ganhou! Mas, com o brio de um campeão, virou a vasilha no chão para começar a luta de novo:

Ora, pode vadiá!

Desta vez o recém-vindo ganhou. A turba dissolveu-se, inconfortável, sob o sol escaldente das duas horas…


Clique aqui para aprender mais sobre Ruth Landes.

Agradecmos a Lauren pela ajuda com a tradução.

28.1.09

Comendo sarapatel com o Querido de Deus

Em 1944, o famoso escritor baiano Jorge Amado escreveu um guia turistico sobre a cidade de Salvador da Bahia de Todos os Santos. No guia, ele escreveu sobre as ruas, os bairros, os mistérios, e as personagens da cidade maravilhosa que Amado adorava. O guia foi publicado em 1945.

No capitúlo sobre as "Personagens" da cidade, Jorge Amado escreveu sobre varios capoeiristas, inclusive Samuel Querido de Deus, um capoeirista que também tem um papel em vários livros do autor, inclusive "Capitães de Areia".

O Capoeirista

Já começaram os fios de cabelo branco na carapinha de Samuel Querido de Deus. Sua cor é indefinida. Mulato, com certeza. Mas mulato claro ou mulato escuro, bronzeado pelo sangue indígena ou com traços de italiano no rosto anguloso? Quem sabe?

Os ventos do mar nas pescarias deram ao rosto do Querido de Deus essa cor que não é igual a nenhuma côr conhecida, nova para todos os pintores. Êle parte com seu barco para os mares do sul do Estado onde é farto de peixe. Quantos anos terá? É impossível saber nesse cais da Bahia, pois há muitos anos que o saveiro de Samuel atravessa o quebra-mar para voltar, dias depois, com peixe para a banca do Mercado Modelo. Mas os velhos canoeiros poderão informar que mais de sessenta invernos já passaram desde que Samuel nasceu. Pois sua cabeça já não tem fios brancos na carapinha que parece eternamente molhada de água do mar? Mais de sessenta anos. Com certeza.

Porém, ainda assim, não há melhor jogador de capoeira, pelas festas de Nossa Senhora da Conceição da Praia, na primeira semana de Dezembro, que o Querido de Deus. Que venha Juvenal, jovem de vinte anos, que venha o mais célebre de todos, o mais ousado, o mais ágil, o mais técnico, que venha qualquer um, e Samuel, o Querido de Deus, mostra ainda é o rei da capoeira de Bahia de Todos os Santos. Os demais são seus discípulos e ainda olham espantados quando êle se atira no rabo-de-arraia porque elegância assim nunca se viu. E já carapinha tem cabelos brancos…

Existem muitas histórias a respeito de Samuel Querido de Deus. Muitas histórias que são contadas no Mercado e no cais. Americanos do norte já vieram para vê-lo lutar. E pagarm muito caro por uma exibição do velho lutador.

Certa vez seu amigo foi procurá-lo. Dois cinematografistas queriam filmar uma luta de capoeira. Samuel chegara de pescaria, dez dias no mar e trazia ainda nos olhos um resto de azul e no rosto um resto de vento sul.

Prontificou-se. Fomos em busca de Juvenal. E, com as máquinas de som e de filmagem, dirigimo-nos todos para a Feira de Água dos Meninos. A luta começou e foi soberba. Os cinematografistas rodavam suas maquinas. Quando tudo terminou, Juvenal estendido na areia, Samuel sorrindo, o mais velho dos operadores perguntou quanto era. Samuel dissa uma soma absurda na sua língua atrapalhada. Fôra quanto os americanos haviam pago para ver vê-lo lutar. O escritor explicou então que aqueles eram cinematografistas brasileiros, gente pobre. Samuel Querido abriu os dentes num sorriso compreensivo. Disse que não era nada e convidou todo mundo para comer sarapatel no botequim em frente.

Podeis vê-lo de quando em quando no cais. De volta de uma pescaria com seu saveiro. Mas com certeza o vereis na festa da Conceição da Feira derrotando os capoeiristas, pois êle é o maior de todos. Seu nome é Samuel Querido de Deus.

Histórias como esta são maravilhosas, e é muito importante para a gente lembrar-se e passar essas histórias da velha guarda da capoeira para as novas gerações, especialmente hoje em dia que a capoeira está se espalhando pelo mundo inteiro rapidamente e não todos os grupos tem um mestre para orientar-se.

Você tem uma história para compartilhar com a comunidade? Pode mandar para nos, e a postaremos.

4.6.08

Edison Carneiro: "os moleques de sinhá" na Bahia

Edison Carneiro (1912 - 1972) foi um intelectual e escritor brasileiro quem dedicou sua vida à resgatar da cultura popular brasileira. Fez várias pesquisas sobre vários aspectos da cultura afro-brasileira, inclusive a capoeira e o candomblé. Ele colocou as resultadas das pesquisas em livros os quais ele chamou “cadernos”. Como ele escrevia sobre a cultura negra no Brasil e existia muito prejuzio, era difícil publicar os cadernos. O caderno sobre a capoeira foi publicado dois anos depois da morte dele.

No livro, Cadernos de Folclore – Capoeira, ele apresenta informação básica sobre a capoeira- a historia, os movimentos, o berimbau, e mais. Também ele fala nos capoeiras da época e os lugares onde gostavam de vadiar:
Os pontos preferidos para a vadiação dos capoeira eram a Boa Viagem no Ano Bom, a Ribeira na segunda-feira de Bonfim, o Terreiro no Carnaval, e o Mercado Modelo durante a Festa da Nossa Senhora da Conceição, mas agora os “moleques de sinhá” se exercitam em locas certos, as “academias” de velho Pastinha no Pelourinho, de Waldemar, de Traíra, de Canjiquinha e outros...

... Os grande capoeira da Bahia eram até poucos anos, o pescador Samuel Querido de Deus, e o estivador Maré, ambos da capital, e Siri do Mangue de Santo Amaro. Outros capoeiras conhecidos eram o “capitão” Aberre, Juvenal, Polu, Onça Preta, Barbosa, Zepelin.. Alguns do seus discípulos emigrados para o Rio de Janeiro, estão tentando continuar a vadiação em terras cariocas.
Hoje em dia, há um museu fantástico no Rio de Janeiro dedicado a Edison Carneiro.